Contaminação em Mauá completa um ano de incertezas

Um ano depois de saberem que vivem sobre um terreno contaminado por resíduos químicos, os moradores do Residencial Barão de Mauá, no Parque São Vicente, em Mauá, na Grande São Paulo, fizeram manifestação ontem, na frente da prefeitura, para exigir a retirada das famílias dos 50 prédios do condomínio. "Nosso sentimento é de total indignação, um desespero sem comparação", disse o síndico de um dos prédios, Luís Carlos Pereira. As famílias souberam da contaminação do solo no dia 16 de agosto do ano passado, pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente.O condomínio, construído pela SQG, foi erguido sobre um depósito de resíduos industriais da Cofap, empresa instalada a poucos metros da área, com autorização da prefeitura. Entre os elementos químicos encontrados estão o benzeno, que pode provocar câncer, o trimetil-benzeno, o decano e o clorobenzeno. Apesar das multas aplicadas, a comunidade ainda se sente esquecida pelo poder público. Até hoje, os moradores dizem não saber exatamente o risco que correm ao ficar no local. As famílias ainda convivem com a discriminação. "As pessoas falam que somos coitadinhos", diz Ivone de Oliveira. "Somos vistos como doentes e nossos filhos já foram chamados de ´contaminadinhos´ na escola." Os representantes do condomínio foram recebidos pela secretária de Planejamento, Josiane Francisco da Silva. Segundo ela, será feito um estudo para monitoramento da área em conjunto com a Fundação Nacional da Saúde (Funasa). Os cerca de 150 manifestantes ainda solicitaram novas análises do solo e exames em todos os 5 mil moradores. "Só 303 foram examinados", reclamou a síndica Tânia Regina da Silva. "É preciso que eles avaliem se os sete abortos espontâneos ocorridos com moradoras nos últimos 12 meses estão relacionados com a contaminação."Os problemas começaram a aparecer em abril de 2000, quando um funcionário do condomínio morreu em uma explosão, durante a limpeza de uma caixa d´água subterrânea. "Descobrimos que temos praticamente toda a tabela periódica em um só terreno, ao lado de caixas d´água subterrâneas", disse a dona de casa Carolina Donato, que se mudou do apartamento, comprado há um ano, três meses depois de se casar. "Estou morando com parentes, enquanto a minha casa está fechada."Quem observa as ruas do Barão de Mauá, porém, não nota diferença. Trata-se de um condomínio de classe média com prédios brancos e jardins bem cuidados, com placas pedindo para que não se pise na grama. Há muitas flores e as entradas dos prédios são pintadas com capricho. As crianças brincam nas ruas sem movimento. Não há, ao passar pela guarita, nada que indique qualquer tipo de problema na área, a não ser o playground fechado. "As crianças não podem mexer na terra", alerta o aposentado Décio Marques. "É uma ameaça silenciosa, que não tem cheiro nem cor", afirma o ambientalista Carlos Bocuhy, do Conselho Estadual de Meio Ambiente. Leia ainda: Construtora do conjunto recebeu 4 multas da Cetesb Em dez anos, identificadas 254 áreas contaminadas no Estado

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