WERTHER SANTANA/ESTADÃO
WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Asma: contato com natureza fortalece sistema imune contra a doença

Mais exposição ao sol, grama, ar e animais reduziria internações: só em 2017, ocorreram 93 mil no SUS

Sara Abdo, especial para O Estado, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2019 | 05h00

 É a combinação de fatores genéticos, ambientais e alérgicos que estimula e piora a inflamação das vias aéreas, dificultando a respiração de um paciente com asma. Porque a maioria da população não se preocupa com todos esses itens, em 2017 houve 93 mil internações por asma só no Sistema Único de Saúde (SUS). A maior parte poderia ter sido evitada, e a despesa de mais de R$ 49,4 milhões em serviços hospitalares com a doença seria menor. 

A asma é um processo multifatorial, e da mesma forma sua prevenção e tratamento devem ser considerados. Foi isso o que a Finlândia constatou, com base nos resultados de políticas públicas focadas na prevenção de alergias a partir da promoção de um estilo de vida mais natural. 

Mas o que é isso em plena quarta revolução industrial, cidades congestionadas e violência urbana? Para Norma Rubini, coordenadora da Comissão de Políticas de Saúde da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai) e professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o conceito de natural passa pela conscientização de que a saúde é integrada e não se previne apenas alergia, ou asma, ou câncer. “Cada vez mais se fala em um conceito único de saúde”, afirma. Isso é associado à saúde primária, sabidamente a principal forma de prevenção.

Na Finlândia, entre 2008 e 2017 o sistema de saúde estimulou a presença da população em ambientes naturais como parques e fazendas, e as mães eram orientadas a amamentar os bebês durante pelo menos seis meses. Privar-se do contato com toxinas naturais e as bactérias que vêm junto de comidas e alimentos não era uma diretriz, e o consumo de antibióticos deveria ser feito apenas em caso de extrema necessidade, já que esses medicamentos destroem bactérias e podem desregular a flora bacteriana. 

Ou seja, a prevenção de doenças alérgicas está relacionada a mais contato com a natureza e menos medicamentos. Como concluiu a Finlândia, as razões para o aumento da alergia não são tanto os novos riscos, mas a perda de fatores de proteção. 

É por isso que Norma associa o fortalecimento do sistema imunológico às melhoras nos quadros de asma. Para “capacitar” a resistência do corpo são necessárias mudanças de hábitos bem simples, como ir ao Parque Ibirapuera, na capital paulista, sentir o sol no corpo em vez de ir a um shopping, de carro e com o ar condicionado ligado. No dia a dia, é interessante ter mais ventilação natural em casa, menos tapetes e convívio com animais. “Vivemos a teoria da higiene, mas quando o mundo era mais sujo havia menos alergias”, lembra a imunologista. 

“Não se pode confundir a poluição das cidades com a sujeira natural dos parques, e as toxinas saudáveis”, pontua Norma. Isso porque a exposição à natureza treina o sistema imunológico, que se fortalece e reage melhor aos fatores externos mais comumente associados à asma: ácaros, poeiras, pelos de animais e poluição urbana. Esse treinamento deve começar no parto normal, quando o bebê passa pela vagina da mãe. Durante a amamentação, o leite tem bactérias naturais e anticorpos, e o contato com a pele é mais saudável que o feito com o bico da mamadeira, por vezes esterilizado mais que o necessário. 

Ao longo da vida é importante ingerir menos alimentos processados e inflamatórios, e praticar atividade física. “O exercício e o controle do peso melhoram o bem-estar, sobretudo do asmático”, ressalta Norma. Mas em ambos os pontos o caminho no Brasil ainda é longo. Com base em dados de 2017 o Ministério da Saúde (MS) concluiu que mais da metade da população (53%) está acima do peso. No ano passado, a Organização Mundial da Saúde (OMS) indicou que o País é um dos que menos se exercita no mundo: 47% da população não faz nem 150 minutos semanais acumulado de atividade física, quadro que coloca o Brasil no 5º pior lugar do ranking, numa lista de 168 países. 

Numa sociedade como a nossa, que se alimenta mal, está acima do peso e faz pouca atividade física, as pessoas se tornam mais vulneráveis à poluição, que passa a desencadear e agravar as crises de asma. Os gases poluentes que mais pioram a doença são o óxido de nitrogênio, o monóxido de enxofre e o ozônio. E quanto menor as partículas e mais seco o tempo, maior é penetração nas vias respiratórias.

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