Contrariando a Justiça, Exército continua na Providência

Comando afirma não foi notificado sobre decisão judicial que determina a retirada de tropas da favela

Pedro Dantas, O Estado de S. Paulo

19 de junho de 2008 | 09h36

O Exército permanece patrulhando o Morro da Providência, no centro do Rio. O Assessoria de Comunicação do Comando Militar do Leste (CML) informou na manhã desta quinta-feira, 19, que não havia sido notificada oficialmente sobre a decisão judicial que determinou, na quarta-feira, a retirada de tropas da favela. O comandante da 9.ª Brigada de Infantaria Motorizada, general Mauro César Lorena Cid, convocou reunião com lideranças comunitárias para tentar evitar a paralisação das obras do projeto Cimento Social. No início da semana, 75 trabalhadores que moram no morro fizeram protesto em frente ao CML e prometeram paras os obras caso o Exército não se retirasse.   Veja também: Justiça ordena retirada das tropas  Recurso divide governo; caberá a presidente decidir Lula defende indenização para famílias de mortos Moradores relatam agressões de militares Força fez alerta sobre rivalidade entre morros Crivella usa imagens da obra em panfleto pré-eleitoral Mãe sugere rezar missa pelo filho no Morro da Mineira    A Advocacia Geral da União (AGU) informou que tão logo seja acionada pelo Ministério da Defesa, irá recorrer da decisão da juíza da 18ª Vara Federal, Regina Coeli de Medeiros de Carvalho Peixoto, de determinar a retirada imediata das tropas do Exército do Morro da Providência, no Rio de Janeiro. Até o momento, porém, o Ministério da Defesa não foi notificado da decisão da Justiça.  Os 11 militares - um tenente, três sargentos e sete soldados - envolvidos na entrega de três jovens do Morro da Providência a traficantes da Mineira, que acabaram sendo mortos, serão indiciados por homicídio, mesmo que vários deles aleguem que seguiam ordens do segundo-tenente Vinícius Ghidetti. O delegado Ricardo Dominguez, da 4ª DP, deve remeter ao 3º Tribunal do Júri, até segunda-feira, o relatório final do inquérito.   O encarregado do Inquérito Policial Militar aberto no Comando Militar do Leste, capitão Peçanha, pediu a prisão preventiva por dez dias de quatro deles: além de Ghidetti, o terceiro-sargento Leandro Maia Bueno e os soldados José Ricardo Rodrigues de Araújo e Fabiano Eloi dos Santos . Segundo relatos dos próprios militares envolvidos no caso, os três rapazes foram detidos na manhã do dia 14 de junho, no alto do Morro da Providência. Uma amiga das vítimas confirmou o relato, contando que eles saíam de um táxi que os havia trazido de um baile funk do Morro da Mangueira, na zona norte. A patrulha militar parou os jovens, que foram revistados. Houve desacato e eles foram levados ao quartel.   Após o incidente em que foi registrado o desacato aos militares, o oficial do quartel não concordou com a decisão do tenente e mandou liberar os jovens. Ele, no entanto, não obedeceu a ordem.  Em depoimento, ele admitiu que decidiu entregar os rapazes aos traficantes da Mineira, que são da facção Amigos dos Amigos (ADA), inimigo direto do Comando Vermelho (CV), que atua na Providência. Segundo os depoimentos, Ghidetti entregou David Wilson Florêncio da Silva, de 24 anos, Marcos Paulo da Silva, de 17, e Wellington Gonzaga Costa, de 19, presos por desacato, aos traficantes como "um presentinho". "Os traficantes não estavam entendendo nada. O tenente disse: 'Está aqui um presentinho para vocês'. Os traficantes perguntaram se eram ‘alemães’ (de quadrilha inimiga). O oficial respondeu que eram de 'lá da Provi' (Providência)", contou o advogado Walmar Flávio de Jesus.     (Colaborou Tânia Monteiro, de O Estado de S. Paulo)

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