Contrato de risco

A notícia sobre os desvios de dinheiro na Cooperativa Habitacional do Sindicato dos Bancários de São Paulo não é novidade, diz o PT em defesa do tesoureiro do partido, João Vaccari Neto, apontado pelo Ministério Público como o responsável por um esquema de desvio de dinheiro dos cooperados.

, O Estadao de S.Paulo

13 de março de 2010 | 00h00

Realmente, o caso está sob investigação há três anos e ganhou destaque de novo por causa do pedido de quebra do sigilo bancário do tesoureiro que, ainda assim, foi posto pelo PT na organização de suas finanças.

Na versão petista, porque não há consistência na denúncia. Trata-se de uma manobra eleitoral urdida pelo PSDB em parceria com o promotor José Carlos Blat, um doidivanas a serviço da oposição.

Ao promotor cabe sustentar sua acusação e embasar com provas o pedido de indiciamento que, já anunciou, pretende fazer ao final do inquérito.

Ao acusado e ao partido caberia a apresentação de argumentos consistentes para demonstrar que as acusações são falsas. Inclusive porque se o promotor é irresponsável e usa a função para servir de instrumento político-partidário-eleitoral, não deve ser difícil demonstrar.

Nesse caso, o Ministério Público seria o primeiro interessado no desmonte da armadilha.

No lugar disso, o que se vê são ataques que não explicam coisa alguma. A começar pelo fato de o partido escolher como tesoureiro alguém que é alvo de investigação por desvio de recursos.

João Vaccari pode ser inocente? Evidente que sim, mas um mínimo de zelo pela satisfação devida à opinião pública, e até uma precaução partidária, aconselharia a conveniência de uma outra escolha. Deve haver gente no PT tão preparada quanto Vaccari e que não esteja sob investigação.

O partido resolveu assumir o risco e agora tenta administrar o prejuízo jogando a responsabilidade nas eleições. Argumenta que os advogados de defesa garantem que não há uma só prova contra o tesoureiro. Mas há um inquérito, uma suspeita a ser esclarecida.

E para isso não contribui em nada alegar a existência de "armação" eleitoral porque a desqualificação do denunciante não inocentará o denunciado.

A questão é que existem cooperados que pagaram pela construção de seus imóveis e não os receberam; há a denúncia de um rombo de milhões; há, segundo o promotor, indícios de que houve desvio de recursos da Bancoop para financiar campanhas eleitorais.

Denúncias dessa natureza não se enfrentam com ameaças de processos nem com evasivas, muito menos com mentiras. Em entrevista ao Estado, João Vaccari Neto falou, mas não se explicou. Limitou-se a informar que houve um "desequilíbrio financeiro" na cooperativa e responsabilizou os cooperados pelos danos. Não é isso o que os prejudicados alegam na Justiça.

Sobre a suspeita de desvio para o caixa 2 do PT, Vaccari foi sucinto: "Não há caixa 2 no PT." Não foi isso que disse o presidente Lula ao justificar o mensalão.

Malabares

Era difícil, mas o chanceler Celso Amorim conseguiu piorar o péssimo efeito das declarações do presidente Lula em defesa da ditadura castrista.

Deu um jeito de responsabilizar os Estados Unidos pela morte, prisão e tortura dos dissidentes cubanos.

"Muito simples: a receita (para acabar com as greves de fome) é pôr fim ao embargo comercial", disse.

Por esse raciocínio, mal comparando, o embargo ao regime de segregação racial da África do Sul não teria sido o responsável pelo fim e sim a causa do apartheid.

Pelo que se depreende da tese do chanceler, acabar com a ditadura, instituir um regime em que todos sejam livres para se expressar, fazer política e divergir, nem pensar. Não é aí, na visão dele, que reside o principal.

É possível que não seja proposital, mas se o governo Lula não se deu conta convém perceber que desse jeito o Brasil entra na rota da chacota internacional.

Com a gentil contribuição da candidata a presidente, Dilma Rousseff, cuja declaração a respeito - "não critico (Lula) nem que a vaca tussa" - revela sofisticada elaboração no que tange à questão democrática no mundo.

Devagar com a louça

Esbravejar contra a aprovação na Câmara da emenda que reduz a receita do Rio em decorrência da exploração de petróleo não vai fazer o governador Sérgio Cabral ganhar a parada no Congresso.

Tampouco será a previsão de que "o Rio vai quebrar", ou a desqualificação da decisão dos deputados - "um deboche" -, que sensibilizará o Senado, agora encarregado de examinar a emenda que altera o sistema de distribuição dos royalties.

O governador confiou na influência do presidente Lula sobre sua base parlamentar, ignorou o peso dos interesses de outros Estados e, sobretudo, desconsiderou o fato de que quando há dinheiro em jogo a regra é outra.

Nesses casos, o caminho não é a força. É o jeito de articular politicamente a melhor solução.

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