Controlador diz que se surpreendeu com velocidade do Airbus

No depoimento à CPI, controladores disseram que havia chuva fina e que a pista estava molhada

09 de agosto de 2007 | 10h57

Um dos controladores de tráfego aéreo que trabalhava na torre de controle do Aeroporto de Congonhas, na zona sul de São Paulo, no dia em que o Airbus A320 da TAM chocou-se contra um prédio da TAM Express – causando a morte de 199 pessoas – afirmou, nesta quinta-feira, 9, que se surpreendeu com a velocidade com que o avião tentou pousar, na pista principal de Congonhas. Ele e outros três controladores foram ouvidos pela CPI do Apagão Aéreo da Câmara.  CPI ouve últimos contatos entre vôo 3054 e torre de Congonhas  Segundo o controlador Celso Domingos Alves Júnior, ele esperava que o piloto fizesse alguma manobra para evitar a batida contra o prédio da TAM Express, no outro lado da Avenida Washington Luís. "Após o pouso, o que me chamou a atenção foi a velocidade que mantinha. Muita velocidade para um pouso. A aeronave manteve a velocidade no restante da pista, quando curva a esquerda e passa pela avenida."  No depoimento, o controlador afirmou que o piloto do Airbus A320, antes de tentar pousar em Congonhas, perguntou sobre as condições da pista, mas em nenhum momento relatou problemas no vôo. O pouso, segundo ele, foi normal. "Aparentemente, normal. Não me relatou nenhum problema. Questionou as condições da pista, mas não informou nenhum problema", disse.  O controlador narrou também que a torre, após constatar a queda do avião, adotou outras providências, como a interdição do aeroporto e o desvio de aviões que estavam chegando para o Aeroporto Internacional de São Paulo (Cumbica), em Guarulhos. Celso Domingues disse que o mesmo avião do desastre, no dia anterior, à tarde, pousou um pouco além da marca de toque. Pista escorregadia A gravação dos diálogos entre a torre e os pilotos revela que, em um primeiro contato, o piloto do Airbus pergunta se a pista estava escorregadia. A controladora avisa que a chuva é leve e contínua e que a pista estava molha, mas ainda não havia registro de que estivesse escorregadia. Mais no final, a torre de controle deixa claro aos pilotos que a pista estava escorregadia e molhada. Trechos do diálogo entre os pilotos do Airbus e a torre de controle de Congonhas foram ouvidos durante a sessão da CPI e, pela primeira vez, os deputados da comissão divulgaram essas conversas, mas os instantes finais da gravação foram vetados.  Interferências na comunicação Os controladores que vôo que depuseram à CPI  denunciaram, também, uma quantidade muito alta de interferências e dificuldades na freqüência de comunicação, via rádio, entre a torre e os aviões. De acordo com Luana Morena Maciel Araújo, que trabalhava na torre de controle no dia do acidente, "ouve-se música, telefones celulares. Isso traz alguma dificuldade. A gente tenta resolver mudando a freqüência, mas todas as freqüências têm um pequeno problema." Ziloá Miranda Pereira, que trabalha em Congonhas há 28 anos, também afirmou que há muita interferência nas freqüências de comunicação, mas relatou que houve melhoria há cerca de um mês. "Muitas vezes, a aeronave não consegue receber as instruções, mas há freqüências alternativas que são usadas nesses casos." Aeroporto de grande movimento Questionados pelo deputado Vanderlei Macris (PSDB-SP) sobre a evolução da quantidade de aeronaves que utilizam o Aeroporto de Congonhas, os controladores afirmaram que o tráfego de aeronaves no aeroporto sempre foi intenso. "Quando cheguei na torre de Congonhas, em março de 2005, o volume era parecido do atual e não acompanhei a evolução, desde o início", afirmou terceiro-sargento Celso Domingos Alves Júnior, responsável pelo contato com o avião que fazia o vôo 3054 no dia 17 de julho. "Estou há um ano estagiando e acho que o volume continua o mesmo, bastante alto. Com uma carga de estresse bastante alta. Procuramos fazer nosso trabalho com muita responsabilidade. Todo dia temos um problema, principalmente na freqüência, inclusive de telefonia celular e das rádios piratas", disse Luana Morena Maciel Araújo. Trabalhando há 21 anos em Congonhas, o controlador Eduardo Pires Dayrel disse que, devido ao acúmulo de tráfego, o aeroporto fica congestionado e não há pátio para o avião estacionar. "Nosso procedimento é segurar o avião e o piloto, informar o tempo máximo que pode esperar", afirmou. Ziloá Miranda Pereira confirmou que Congonhas sempre teve tráfego maior. "Trabalho em Congonhas desde antes de inaugurar Cumbica. Sempre existiu esse tipo de tráfego, de pequeno, de executivo, aeronave mais lenta e junto com Boeing. A área de Congonhas sempre foi muito congestionada", diz. Tensão em dias de chuva Os controladores relataram que as operações em Congonhas ficam mais tensas em dias de chuva. A afirmação foi feita pela controladora Ziloá Miranda Pereira, que trabalha há mais de 20 anos no controle do tráfego do aeroporto.  "O estresse sempre aumenta quando chove em Congonhas, temos as nuvens e as aeronaves têm que desviar. Quando o tempo está ruim, as aeronaves saem fora dos padrões normais. Quando a pista está molhada, a operação fica mais lenta. O avião demora mais para liberar a pista", afirmou a controladora, após a questionamento do deputado Ivan Valente (PSOL-SP). Segundo o terceiro-sargento Celso Domingos Alves Júnior, responsável pelo contato com o avião no dia do acidente, a Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária (Infraero) é comunicada sempre que se detecta a chuva e espera-se parecer sobre as condições de pouso na pista. "Comunicamos ao administrador do aeroporto e esperamos parecer da Infraero sobre a pista quando está molhada. Paralisações da operação da pista são feitas pela empresa. Se recebemos um OK a gente continua. Não interpretamos a pista, mesmo se há relatos de pilotos sobre pista escorregadia. Transmitimos aos pilotos as informações que recebemos", afirmou.

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