Controladores do Legacy culpam equipamentos por acidente

Falhas nos equipamentos foram decisivas no acidente entre o Boeing 737-800 da Gol e o jato Legacy, no Mato Grosso, segundo declarações de dois controladores de vôos do Legacy, que não quiseram se identificar, à revista Época. É a primeira vez que controladores que participaram do episódio falaram à imprensa. O maior acidente aéreo já ocorrido no Brasil deixou 154 mortos, em 29 de setembro, todos passageiros da Gol.Um dos controladores era responsável por acompanhar o Legacy no espaço aéreo de Brasília e, o outro, trabalhava na mesma sala e presenciou o drama dos colegas. Entre outras declarações, eles disseram que o grande problema foi que o software dos computadores informou que o Legacy voava na altitude autorizada em seu plano de vôo (36 mil pés) quando, na realidade, estava em rota de colisão com o vôo da Gol, a 37 mil pés. "Como ele (Legacy) apresentou problema no transponder, não dava para ter os dados do jato, e sim do nosso sistema", disse um deles. "Se soubéssemos que o Legacy estava a 370 (a 37 mil pés), seria fácil. Já passamos por situações muito mais difíceis. Dava para avisar o supervisor sobre o problema", concluiu.Eles disseram ainda que, apesar de a Aeronáutica negar, existem zonas cegas que não são alcançadas pelos radares. "É um grande retângulo, que pega o norte de Mato Grosso, Tocantins e chega até a Bahia", afirmou um dos controladores.Com o desaparecimento do Boeing da Gol dos radares, os dois contaram que ocorreram crises de choro e até desmaios de pessoas que integravam a equipe de controle. "Estou tomando remédio para dormir porque a imagem que vem à minha cabeça é o piloto brigando com a aeronave para não cair. E ele foi achado com a mão no manche", revelou um deles.Quase dois meses após o acidente entre o Boeing da Gol e o jato Legacy, as investigações continuam apontando para uma sucessão de falhas que teriam provocado a tragédia. Um relatório final só deve ser divulgado em oito meses.Logo após a tragédia da Gol, como é praxe em casos de acidentes, controladores de vôo de Brasília entraram em licença médica e decidiram iniciar um protesto.Crise nos aeroportosOs atrasos de vôos nos principais aeroportos do País começaram no dia 27 de outubro quando os controladores de tráfego aéreo do centro de controle de Brasília - o Cindacta 1 - decidiram iniciar um protesto, a chamada operação-padrão, contra a falta de profissionais. Na operação-padrão, os controladores seguem as normas internacionais que determinam que cada operador deve controlar, no máximo, 14 aeronaves simultaneamente. Antes da operação, cada controlador chegava a monitorar até 20 aviões ao mesmo tempo. Com isso, o intervalo entre os pousos e decolagens aumentou, provocando uma seqüência de atrasos e cancelamentos de vôos em terminais aéreos de todo o País.O colapso no tráfego aéreo ocorreu no dia 2 de novembro, feriado de Finados, quando cerca de 600 vôos sofreram atraso. Milhares de passageiros sofreram com esperas de até 20 horas e os prejuízos chegaram até à rede hoteleira.

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