Controladores reagem: 'não somos terroristas'

"A Aeronáutica está procurando uma válvula de escape. E é mais plausível jogar a culpa prá cima da gente"

André Alves, da Agência Estado,

22 Julho 2007 | 14h50

Hipótese levantada por membros da Aeronáutica de que o apagão no centro de controle aéreo de Manaus (Cindacta-4), ocorrido na noite da última sexta-feira, 20, teria sido obra de sabotagem, deixou revoltados os controladores que atuam no controle do tráfego aéreo em Manaus. "A Aeronáutica está procurando uma válvula de escape. E a válvula de escape mais plausível é jogar a culpa prá cima da gente. Não existiriam meios físicos de realizarmos sabotagem. Não somos terroristas", disse, indignado, um controlador do Cindacta-4.   De acordo com ele, 12 controladores, em Manaus, trabalhavam na noite de sexta-feira quando o apagão aconteceu. Segundo o militar, nenhum deles poderia ter acesso à rede elétrica do Cindacta-4 para promover o desligamento de toda a rede de energia do Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam), onde funciona o centro de controle. "Esse sistema é um câncer. É obsoleto. Não temos culpa se os três geradores de energia do Cindacta-4 não funcionaram", sustentou o controlador. "Eles estão dizendo que os controladores sabotaram. Isso é um absurdo", continuou.   Clima   Conforme contaram outros militares que atuam no Cindacta-4, o clima dentro do centro de controle de tráfego aéreo "é o pior possível". O trabalho dos controladores está sendo vigiado pela Polícia da Aeronáutica (PA). De acordo com eles, na sala do centro de controle há sempre um ou dois agentes da Aeronáutica, armados, monitorando o serviço de controle de aeronaves.   "Qualquer um que se recusa a cumprir uma ordem vai direto para o xadrez", disse um controlador. "A PA fica querendo nos intimidar o tempo inteiro". Segundo os controladores, a Polícia da Aeronáutica passou a vigiar o trabalho dos militares desde que dez controladores foram afastados do Cindacta-4, o que ocorreu há cerca de três semanas.   A presença dos agentes da PA no Cindacta 4 é um dos argumentos usados pelos controladores para garantir que seria impossível sabotar o sistema. Neste domingo, além de verem intensificado o número de policiais da Aeronáutica no centro de monitoramento de tráfego aéreo, os controladores também tiveram uma surpresa.   Durante todo o dia, o trabalho deles foi acompanhado pelo comandante da Aeronáutica, Tenente-Brigadeiro Juniti Saito, que desembarcou em Manaus no domingo para acompanhar as investigações sobre o apagão que gerou transtorno em vôos de todo o país.   O apagão    O Cindacta-4, que responde por 90% do tráfego entre Brasil, Estados Unidos e América Central, ficou às escuras durante três horas, em virtude de um curto-circuito no sistema de energia elétrica. A pane obrigou aviões vindos do exterior a aterrissarem em outros países e provocou atrasos em 44,7% dos 1.282 vôos internos programados até as 18h30. Outros 11,2% foram cancelados.   À 0h45, os terminais do Cindacta-4 usados para monitorar vôos saíram do ar. "Os aviões foram obrigados a ficar taxiando sobre os céus de Manaus, às cegas", contou um controlador. "Alguns colegas começaram a chorar. Foi desesperador." Para evitar uma tragédia, os controladores usaram rádios da Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária (Infraero). Segundo a Aeronáutica, havia 17 aeronaves em vôo, das quais 8 tiveram as rotas modificadas. A situação só foi normalizada a partir das 2h30.   O Aeroporto de Miami informou que quatro vôos da American Airlines, com destino a São Paulo e ao Rio, retornaram à Flórida. No Aeroporto de Cumbica, Guarulhos, cinco aviões tiveram de voltar depois de chegarem ao limite da área monitorada pelo Cindacta-4.   Em nota, a Aeronáutica informou que houve "uma anormalidade" em geradores do Cindacta-4. O problema teria sido detectado por volta das 23 horas de sexta, numa inspeção de rotina, mas não comprometia o controle de tráfego. Porém, durante um procedimento de manutenção, houve um curto-circuito que prejudicou a alimentação das baterias do sistema.   A Aeronáutica negou ter havido risco de acidentes. Conforme a nota, as comunicações passaram a ser operadas com os equipamentos "high frequency do Centro Amazônico, onde as equipes foram reforçadas."   Com a pane, o aeroporto mais prejudicado foi o de Belém, com 88,8% de atrasos até 18h30. Em Cumbica, o porcentual chegou a 37,7%. No Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, o vilão foi o mau tempo. O terminal ficou fechado das 6h38 às 7h41 e das 8h40 às 10h25, provocando atrasos em 84,4% dos vôos. Em Congonhas, às 21 horas, o porcentual de atrasos chegava a 21,6% e o de cancelamentos, a 28,3%.

Mais conteúdo sobre:
Vôo 3054

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.