Conversa de surdos

Muita gente pergunta quem foi melhor no debate de domingo na Rede TV! Independentemente de ter visto ou não o programa. Isso acontece sempre, as pessoas querem saber a opinião do outro, mas, sobretudo, querem conferir se a sua própria "está certa".

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

19 Outubro 2010 | 00h00

Há dois tipos de avaliação: o conjunto do debate e o desempenho de cada um dos candidatos. Em ambos as respostas são tão óbvias que chega a ser um tanto constrangedor externá-las como fruto de análise especializada.

Se comparado com os de "antigamente", até a década dos 90, o debate foi ruim, como todos os outros, à exceção do anterior, na Band. Naquele, Dilma Rousseff deu um choque de animação ao ser mais incisiva nas cobranças ao adversário.

No domingo a candidata amenizou o tom e a falta de novidade levou o debate para o terreno já bastante conhecido do público: aquela coisa aborrecida, arrastada e com discussões muitas vezes absolutamente ininteligíveis para a maioria das "pessoas humanas".

Serra quer explicar as coisas da forma "correta", raramente faz a tradução política do assunto, o que prejudica o entendimento de quem acompanha as cenas como um campeonato de sacadas e tiradas. É assim que a gente vê esse tipo de programa, avaliando quem desferiu o melhor golpe, instante a instante.

Nenhum dos dois é bom nisso. Mas se o defeito do candidato do PSDB é excesso de apego ao "concreto" daquilo que está sendo abordado, o de Dilma é sua total incapacidade de se fazer acompanhar no desenrolar do raciocínio.

E olhe que melhorou muito desde que fazia plateias inteiras cochilarem durante suas apresentações de projetos do governo.

Dilma Rousseff simplesmente não fecha os raciocínios. Tampouco inicia um pensamento de maneira a se conectar em linha reta com a questão posta.

No domingo, nem ela nem Serra responderam ao mediador Kennedy Alencar quais eram os defeitos e qualidades de cada um e do adversário. Foi uma tentativa de sair da ladainha sobre saúde, educação, infraestrutura, assuntos cujas abordagens são completamente previsíveis.

Ambos correram para a segurança da saída pela tangente. Tradução possível: nenhum dos dois acha que tem defeitos ou qualidades nem sabe avaliar sob esses critérios o oponente.

Daí em diante foi a obviedade de sempre: o tucano infinitas vezes superior em todos os quesitos, o que de resto seria diferente apenas se a petista fosse um fenômeno de talento natural para a política e conseguisse com isso superar as diferenças de vida, experiência e perfil existentes entre dos dois.

Trata-se de um artificialismo retórico destinado exclusivamente a alimentar o mito da neutralidade, apontar equilíbrio de desempenho entre os candidatos.

Nesse último debate, para a petista ainda pesou a desvantagem do efeito do resultado do primeiro turno e aí Serra, reanimado, joga com vontade de acertar; Dilma, abatida, joga com pânico de errar.

Roupa nova. José Serra gostaria muito de ter o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga no ministério caso seja eleito presidente.

Mas não para cargo na área econômica: Serra daria a Armínio a pasta da Educação.

A origem. Os rapazes e moças do PSOL vão desculpar, mas "voto crítico" não quer dizer nada. Apoiam Dilma e ponto final. O adjetivo visa a justificar o partido por causa da posição crítica em relação do governo Lula.

Mas a urna não aceita meio termo: voto é voto e o PSOL não precisa de justificativa para escolher em quem recomendar apoio. Ponto fora da curva seria o alinhamento ao PSDB com quem não guarda qualquer identidade.

Na gangorra. Sergio Cabral está para Dilma no segundo turno como Aécio Neves esteve para Serra no primeiro: jura que apoia, mas não prova.

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