Cordão dos cegos volta às ruas

No bloco especial, quem enxerga pode pular vendado

Alexandre Rodrigues, RIO, O Estadao de S.Paulo

11 Fevereiro 2009 | 00h00

Entre os blocos que animarão o carnaval de rua do Rio, um vai chamar a atenção pela condição especial de seus foliões. Improvisado no ano passado, o bloco "Beijamin no Escuro" promete voltar às ruas da Urca na terça-feira de carnaval com o cordão de deficientes visuais dos programas de reabilitação do Instituto Benjamin Constant (IBC), a mais tradicional instituição de educação para cegos do País. Cerca de cem pessoas com diferentes graus de deficiência visual vão desfilar, mas quem enxerga é bem-vindo e pode experimentar sambar no escuro usando as vendas que serão distribuídas na hora. "Vamos dar as vendas, mas não é obrigatório; a maioria não suporta muito tempo. No ano passado, os cegos não tiveram problema de orientação. Tivemos de cuidar mesmo dos videntes vendados, que se enrolam mais", conta o engenheiro Fernando Gutman, voluntário que lidera uma oficina de teatro entre os reabilitandos do IBC. "O pessoal do teatro adora samba, marchinhas, mas não pode ir aos grandes blocos pelo risco de ser atropelados pela multidão. Então resolvemos fazer o primeiro bloco de cegos do Brasil." Foi ostentando esse título que o bloco desfilou em 2008 pela Avenida Pasteur até a estação do bondinho do Pão de Açúcar, atraindo vizinhos e turistas. Neste ano, com mais organização, esperam maior adesão. Para cantar o enredo sobre o bicentenário de Louis Braille, criador da escrita para deficientes visuais, o samba das deficientes visuais Lucia Teles e Ro Ferreira foi escolhido numa eliminatória. No fim de semana, eles fazem ensaio técnico que inclui saudações aos turistas em várias línguas. A espontaneidade da massoterapeuta Marilza Pereira, de 56 anos, a fez rainha da bateria. Ela perdeu quase toda a visão há oito anos em consequência do glaucoma, mas, frisa, manteve o alto-astral. "Fui escolhida porque gosto de dançar, sou muito desinibida. Vou na frente da bateria me guiando pelo som. Se vou saindo do meio da pista, alguém me avisa para realinhar e eu volto", conta Marilza, que sempre desfilou em escolas de samba. No desfile, alguns videntes que se integraram ao grupo farão um cordão para ajudar os cegos, que são guiados pelo carro de som. A maioria dos que tocam na bateria também vê, mas há dois cegos entre os ritmistas. "Na hora, dá tudo certo, só vendo para crer", brinca Manoel dos Anjos, um dos idealizadores do bloco. Cego desde um acidente de carro em 1985, ele comanda uma "feijoada às cegas" aos domingos que, a exemplo das escolas de samba, virou ensaio oficial do bloco. Os garçons são cegos e os comensais que podem ver são convidados a degustar o prato com vendas nos olhos. No fim, todo mundo cai no samba.

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