Corleone inspira plano do PCC para impedir delação premiada

Advogados da facção pensaram em seqüestrar família de testemunha durante depoimento

Bruno Tavares e Marcelo Godoy, O Estadao de S.Paulo

30 Agosto 2008 | 00h00

Uma estratégia usada pelo mafioso Michael Corleone, no filme O Poderoso Chefão 2, serviu de inspiração aos advogados do Primeiro Comando da Capital (PCC) para intimidar um advogado que supostamente pretendia fazer um acordo de delação premiada e delatar seus colegas e a cúpula do crime organizado. A idéia era seqüestrar a família da testemunha e mantê-la em cativeiro enquanto durasse o depoimento aos promotores do Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado (Gaeco). "Isso é o que acontece no Poderoso Chefão", afirma a advogada Alessandra Moller após ouvir sua colega, Patrícia Galindo Godoy, explicar seu plano. Alessandra se refere à cena em que Michael Corleone, interpretado por Al Pacino, chega ao Comitê de Investigações sobre a Máfia do Senado americano para acompanhar o depoimento formal de Frank Pentangeli, um chefe mafioso preso pelo FBI que havia decidido colaborar e acusar Michael Corleone. O chefão, no entanto, fez-se acompanhar do irmão de Pentangeli, trazido da Sicília apenas para aparecer diante da testemunha. O recado era claro: ou Pentangeli mudava seu depoimento, o que ele faz, ou sua família sofreria as conseqüências. A testemunha que os advogados do PCC queriam ameaçar era o também advogado Jerônymo Ruiz Andrade do Amaral, ex-coordenador da Sintonia dos Gravatas, que havia sido preso em 2 de abril quando tentava entregar dois celulares, na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, para o preso Orlando Motta Junior, o Macarrão, um dos generais da facção e responsável na organização pela sintonia. Em suas mensagens interceptadas, Patrícia diz que foi informada por sua fonte no Ministério Público Estadual que Jerônymo "estava para delatar os advogados da organização e os membros da cúpula do PCC, chamados de ?meninos? durante as conversas". "A fonte é 100% confiável", afirmou a advogada Patrícia para sua colega Alessandra e para o advogado José Luiz Menezes. O grupo então discute o que fazer para enfrentar essa ameaça. O primeiro plano foi chamar "um advogado de fora" que se dispusesse a visitar Jerônymo na cadeia e lhe desse um recado: "Os ?meninos? estão sabendo." Para os três, Jerônymo entraria em desespero e desistiria da delação. Menezes então dá uma sugestão. Eles podiam fazer um bilhete para Jerônymo com o seguinte teor: "Aí, c., se cagüetar, já sabe que é daquele jeito, morou?" Foi então que Patrícia teve a idéia de seqüestrar a família de Jerônymo durante seu depoimento e arrumar um jeito de informá-lo sobre isso. "Pensei no seguinte: ?Olha, você vai depor, e chegou a informação de que você tá querendo abrir o jogo. Nós temos gente dentro do MP e vamos estar na sua chácara e com sua família até o seu depoimento acabar." O Gaeco do Vale do Paraíba constatou que, dias depois dessas conversas, um advogado que serviu de mensageiro para a Sintonia dos Gravatas foi até a Penitenciária 2 de Tremembé, no Vale do Paraíba, visitar Jerônymo, que responde a processo sob a acusação de formação de quadrilha. Segundo a denúncia dos promotores, o braço jurídico do PCC foi estruturado com o único objetivo de fornecer assessoria à organização criminosa, especialmente aos membros da cúpula." Essa atuação, dizem os promotores, "nada tem a ver com o direito constitucional à defesa, ao qual todas as pessoas têm direito". FRASES Patrícia Galindo de Godoy Advogada acusada de chefiar o departamento jurídico do PCC "Isso (seqüestrar familiares de testemunha para pressioná-la) é o que acontece no Poderoso Chefão." "Pensei no seguinte: ?Olha, você vai depor e chegou a informação que você tá querendo abrir o jogo. Nós temos gente dentro do MP (Ministério Público Estadual) e vamos estar na sua chácara e com sua família até o seu depoimento acabar?." "Ele (um promotor que a alertou) me falou que a melhor maneira é desligar os celulares."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.