Coronel vê demora de pilotos em frear Airbus

Comandantes levaram 9 s para acionar freio, diz assessor de CPI

Luciana Nunes Leal, O Estadao de S.Paulo

07 Setembro 2020 | 00h00

Conforme a caixa-preta, 26 segundos separam a chegada do Airbus A320 da TAM no Aeroporto de Congonhas da batida com o prédio da TAM Express, em 17 de julho, no maior acidente da história da aviação civil brasileira, com 199 mortos. Mas o freio mecânico, acionado nos pedais, foi usado só 9 segundos depois do toque na pista. ''''Quer dizer, 630 metros foram jogados no lixo. Perderam-se 630 metros preciosíssimos.'''' A afirmação é do coronel aviador Antônio Junqueira, contratado pela CPI do Apagão Aéreo da Câmara para analisar os dados recolhidos pela Aeronáutica. Vice-diretor do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) - na época em que se investigou o acidente com o Fokker-100 da TAM, em 1996 -, ele destacou ''''uma série de fatalidades'''' que levaram à tragédia e procurou não culpar os pilotos. Mas, ao fim de seis horas de explicações, deixou nos deputados a sensação de que a principal causa do acidente foi falha humana. Essa avaliação contraria o que o relator da CPI, Marco Maia (PT-RS), pretende colocar no relatório final. ''''Continuo na convicção de que o equipamento do Airbus mostrou falhas. A lógica do Airbus é complexa, os pilotos queriam parar e o avião não parou.'''' A primeira falha que resultou no acidente, na avaliação do coronel, foi o fato de apenas o manete esquerdo (espécie de marcha acionada na hora do pouso) ter sido recuado para a posição idle (ponto morto) e depois para reverse (retardar), enquanto o direito ficou na posição climb (subida). Outra falha teria sido o fato de os pilotos não terem percebido que os manetes estavam fora do lugar. Nesse ponto, Junqueira fez duras críticas ao sistema de automação dos Airbus. ''''Os pilotos da TAM nem olham para o manete até pousar. No Boeing, o manete tem de ser usado o tempo todo'''', comparou o coronel. ''''A Airbus esquece que quem comanda é um ser humano.'''' LAPSO Para o técnico, o piloto, por um lapso, esqueceu de colocar o manete direito na posição correta. O avião acidentado voava com o reverso (freio localizado na turbina) direito travado, porque apresentara defeito quatro dias antes, mas, mesmo nesta condição, o manete deveria ser levado para ponto morto. Segundo Junqueira, os pilotos podem não ter percebido a gravidade da situação logo que o avião pousou e não notaram que os spoilers (freios localizados nas asas) não funcionaram. O coronel disse que a simulação do acidente feita na última sexta-feira pela CPI, em São Paulo, tinha o objetivo de encontrar outros motivos para o acidente, mas não foi possível detectar nenhuma falha recorrente no sistema automatizado. ''''Não é admissível que a tripulação, com aquela experiência, com aquela quantidade de vôos, tivesse deixado de reduzir os manetes. Mas outros acidentes com reverso travado mostram a mesma coisa (falha humana)'''', afirmou Junqueira. Outra das conclusões de Maia no relatório, a de que a pista de Congonhas não foi fator determinante, mas apenas ''''contribuiu'''' para o acidente também foi questionada pelos deputados, a partir da exposição de ontem. Junqueira calculou que, nas mesmas condições de pouso e com a mesma dificuldade, o Airbus A320 conseguiria parar no limite de uma pista de 3.218 metros. Ou seja, poderia frear na pista maior do Aeroporto de Guarulhos, que tem 3.700 metros, ou na de Viracopos, com 3.240 metros. Junqueira ressalvou que não poderia garantir que o acidente não teria ocorrido nesses dois aeroportos porque o avião saiu do eixo e pendia para a esquerda ao ultrapassar a pista e explodir.

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