Corpo de alpinista brasileiro que sofreu acidente nos Andes não será resgatado

Autoridades argentinas consideram que tentativa seria 'extremamente perigosa' e colocaria em risco outras vidas; família de Bernardo Collares não expressou urgência para resgate

Ariel Palacios - O Estado de S. Paulo,

10 de janeiro de 2011 | 17h40

BUENOS AIRES - A Comissão de Auxílio do vilarejo de El Chaltén informou que o corpo do alpinista brasileiro Bernardo Collares - que na segunda-feira da semana passada sofreu um acidente quando descia o pico Fitz Roy, no extremo sul do lado argentino da Cordilheira dos Andes - permanecerá por tempo indeterminado nessa montanha. Segundo a comissão, a tentativa de resgate seria "extremamente" perigosa. A área onde Collares teve a queda - que causou uma fratura do quadril e hemorragia interna - foi assolada por uma intensa tempestade de neve na noite seguinte a seu acidente.

 

A médica do Posto Sanitário de El Chaltén, Carolina Codó, integrante da comissão, foi a encarregada de explicar a situação à família do alpinista brasileiro. "Se enviássemos uma missão de resgate levaríamos dois dias, em caso de uma escalada rápida, para subir. E depois disso, cinco dias para descer em rapel, carregando a maca com o corpo do alpinista. Por este motivo, não há possibilidades de efetuar essa operação. Por um lado, está o risco da descida em si com o corpo. Por outro, as condições climáticas atuais na área do pico, que são péssimas", disse ao Estado em entrevista por telefone.

 

Segundo Codó, "o corpo permanecerá ali por um tempo indeterminado. Se um dia for possível removê-lo, será feito. Mas, descer com o corpo é uma operação delicada. Não sei se justifica colocar em risco a vida de outras pessoas". Além disso, segundo a médica, "a família do alpinista não expressou a necessidade de levar o corpo de forma urgente ao Brasil".

 

Codó indicou que uma alternativa especulada pela mídia, a de usar um helicóptero para aproximar-se do pico, é altamente perigosa: "existem fortíssimos ventos ali. Nunca foi feito nada assim na Argentina. Não sei se com um bom piloto e uma equipe altamente treinada, além de um excelente helicóptero, esse tipo de resgate seria possível".

 

A médica e integrante da Comissão de Auxílio destacou que no futuro a eventual remoção de Bernardo Collares só será avaliada "caso a família expresse a necessidade de levar o corpo".

 

Colega. Collares - presidente da Federação de Montanhismo do Estado do Rio de Janeiro e vice-presidente da Confederação Brasileira de Montanhismo e Escalada - sofreu o acidente quando escalava o Fitz Roy acompanhado de sua colega Kika Bradford, que ficou em estado de choque após a tragédia. Kika, que conseguiu descer do pico em menos de 24 horas, está atualmente hospedada em um hotel em El Chaltén, onde repousa. O gerente do estabelecimento indicou ao Estado que ela não falará com a imprensa.

 

O irmão de Kika, Alexandre Bradford, confirmou que sua irmã "ainda não está bem para falar". Segundo ele, nenhum integrante da família fará declarações à imprensa enquanto estiverem na Argentina. Bradford destacou que estavam na expectativa da definição de um voo para retornar ao Brasil. "Kika só falará com a imprensa depois que voltar ao país", disse.

 

Fumante. Os indígenas tehuelches chamavam o Fitz Roy de "El Chaltén", que em seu idioma significa "a montanha que fuma", em referência à frequente presença de nuvens que costumam cobrir o pico. O pico, visto pela primeira vez por homens brancos em 1877, é a montanha sagrada dos Tehuelches. Seu cume, de complexo acesso, somente foi conquistado em 1952 por dois alpinistas franceses.

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