MARCIO FERNANDES/ESTADAO
MARCIO FERNANDES/ESTADAO

Corpo de d. Paulo Evaristo Arns é sepultado na cripta da Catedral da Sé

Fiéis acompanharam cerimônia por meio de telão; cerca de 3 mil pessoas foram à igreja para último adeus

José Maria Mayrink E Luiz Fernando Toledo, O Estado de S. Paulo

16 Dezembro 2016 | 18h02

SÃO PAULO - Catedral lotada, cerca de 3 mil pessoas. Os aplausos, que interromperam várias vezes a cerimônia toda vez em que se lembrou atuação política de d. Paulo Evaristo Arns em sua luta em defesa dos direitos humanos durante o regime militar, repetiram-se quando a urna do cardeal foi levada para a cripta da igreja às 16h58 e, em seguida, encerrada no túmulo, às 17h10.

Foi uma cerimônia silenciosa e emocionante que a multidão de fiéis acompanhou pelos telões, porque na cripta só entraram membros da família Arns e os cardeais e bispos que participaram da missa de corpo presente. Os parentes de d. Paulo – seu irmão Felipe, suas irmãs Otilia e Zélia, sobrinhos e sobrinhos-netos – desceram para a cripta às 16h35, para 30 minutos de recolhimento e oração.

“Um coral cantou conosco”, informou Flávio Arns, sobrinho de d. Paulo, ex-senador do PT e do PSDB, atualmente secretário de Assuntos Estratégicos do Estado do Paraná. No início da missa, às 15 horas, d. Leonardo Steiner, bispo auxiliar de Brasílias e secretário- geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), apresentou-se como primo de d. Paulo. “Agradecemos a Deus por termos tido na família pessoa tão extraordinária”, disse d. Leonardo.

O presidente da CNBB e arcebispo de Brasília, d. Sérgio Rocha, afirmou que o exemplo de d. Paulo contribuiu para tornar a Igreja mais profética e misericordiosa, “legado de testemunha e missão” que incentiva a CNBB a imitar seu exemplo.

Nos primeiros bancos da ala reservada a autoridades, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) assistiu à missa ao lado do prefeito eleito João Dória (PSDB) e do atual prefeito Fernando Haddad (PT). Atrás deles, representantes de outras igrejas cristãs dividiam banco como o rabino Michel Schlesinger, da Congregação Israelita Paulista, e o sheik Hossein Khaliloo, da comunidade muçulmana.

Desde quarta-feira, diversas autoridades foram ao local, como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o vereador eleito Eduardo Suplicy (PT), a deputada Luiza Erundina (PSOL) e o ex-governador Paulo Egydio Martins. O presidente Michel Temer não foi por receio de ser hostilizado em um “ambiente de esquerda”, como avaliaram seus assessores, mas enviou o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes.

D. Odilo lembrou na homilia a atenção que d. Paulo deu aos humildes e sua defesa da democracia, “mediando conflitos, dando apoio às pessoas perseguidas” na ditadura. O cardeal leu mensagem de condolências mandada pelo papa Francisco.

“Ele (d. Paulo) deu testemunho do Evangelho no meio de seu povo”, afirmou o papa. O arcebispo revelou, em seguida, testamento que d. Paulo fez em 16 de fevereiro de 2009. Nesse, d. Paulo disse que nada possuía de valor e destinava seus bens à Casa São Paulo, de padres idosos, no Ipiranga.

Fé. “A última palavra que ouvi dele foi ‘sempre’, quando no domingo lhe disse que as obras pelas quais lutou deviam continuar” disse Nélson Arns Neumann, filho de Zilda e presidente da Pastoral da Criança.

Uma bandeira de Forquilhinha (SC), cidade natal de d. Paulo foi hasteada perto da urna, ao lado de uma do Corinthians. 

Bandeiras de movimentos sociais pastorais, incluindo a do Movimento do Povo da Rua, tremulavam. Houve longa fila para visitar o túmulo, que ficará aberto para visitação. A missa de sétimo dia vai ser na quarta-feira, na Catedral da Sé.

O advogado Belisário dos Santos Jr., ex-secretário de Justiça da gestão Mário Covas (PSDB), que trabalhou com d. Paulo na Comissão Justiça e Paz, olhou a cena, encostou a cabeça no ombro de um amigo e soluçou.

 

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