''Corre para o alto. Quem ficar vai morrer''

Reportagem do ?Estado? é resgatada do Morro do Baú, em Ilhota, juntamente com equipe da Força Nacional

Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

29 Novembro 2008 | 00h00

A região do Morro do Baú tem cerca de 100 quilômetros quadrados e está encravada no meio de dois vales, o que dificultou o acesso durante a semana e potencializou a catástrofe. A equipe da Força Nacional de Segurança (FNS) chegou ao local por volta das 9h30 de ontem, na tentativa de ajudar os moradores e resgatar os corpos que ainda estão soterrados na região. Num vôo de pouco mais de dez minutos, Madonna, um labrador marrom de 2 anos e meio de idade que veio de São Paulo para ajudar nas operações, parecia bem mais calma do que os 11 homens que se espremiam no helicóptero da Força Aérea Brasileira (FAB). "A gente fica até mais nervoso do que os cachorros porque a adrenalina fica a mil", disfarçou o cabo Felipe Valter Lopes, de 43 anos - apenas há 40 dias usando a farda cinza da Força Nacional. "Preciso pitar (fumar) pra me acalmar."Uma vez no solo lamacento do Baú, os seis cães farejadores - Preta, Morena, Xangô, Mel e Zion, além de Madonna - se revezavam no meio dos tijolos, telhas retorcidas e móveis quebrados para tentar sentir o cheiro das vítimas. O odor forte de fezes parecia não atrapalhá-los. No local onde eram feitas as buscas, totalmente devastado pelos desmoronamentos que ocorreram no fim de semana passado, três pessoas ainda estavam soterradas - um adulto, um jovem de 20 anos e um bebê de 7 meses."Atenção todo mundo. Essas pessoas aqui enterradas estão mortas. O risco agora é da equipe, é só nosso, a gente que está vivo", disse o capitão Romeu Rodrigues da Cruz Neto, responsável pela operação. "Se a bota ficar presa na lama, pede ajuda para o colega do lado. Se afundar na altura do umbigo, cuidado porque não dá pra respirar, morre. Não quero perder ninguém, quero voltar com todos vocês."Essa operação no entanto não durou nem duas horas. Por volta das 10h45, chegou a informação de que existia muita água represada nas encostas e um desmoronamento havia acabado de acontecer no morro logo ao lado - quatro pessoas estavam soterradas. "Vamos parar tudo por um tempo, porque se essa água descer vai levar tudo aqui", disse o capitão Romeu Rodrigues da Cruz Neto, que subiu em um helicóptero da Polícia Militar para checar as condições do terreno. "Lembrem-se do que eu falei, não quero perder ninguém."Os homens então se abrigaram em uma casa abandonada, amarraram os cachorros e começaram a conversar enquanto novas ordens não chegavam. "O pior é essa espera", reclamou o cabo Edmílson Vieira, que tentava passar o tempo contando histórias de sua terra natal, Goiânia. A maioria dos homens da Força Nacional na operação era de calouros que estavam há pouco mais de um mês no serviço. "Estamos loucos para ajudar, mas mal dá para se movimentar nesse lamaçal."Poucos minutos depois, o sargento Marcelo Dias gritava pelo rádio. "Vamos precisar evacuar, acabaram de me dizer que a água está vindo para cima da gente", disse. Neste momento, todos perceberam que um fio de água que corria perto da equipe já havia se transformado num pequeno rio. "Quem ficar vai morrer, a lama vai vir e vai cobrir tudo aqui."Os próprios homens da Força Nacional correram na direção de um campo de futebol nas imediações para serem resgatados pelos helicópteros, que começaram a sobrevoar a área como mosquitos. Grande parte dos mantimentos, das rações dos cães e dos galões de água foi abandonada. Uma equipe de televisão da rede Al-Jazira, que também acompanhava os trabalhos, subiu desesperada para um pequeno morro, na tentativa de ficar em uma área mais alta. Três cabos da FNS também correram para o mesmo local, sem saber o que fazer. Alguns vizinhos das imediações, que já limpavam suas casas e tentavam retomar as vidas depois da tragédia desta semana, também seguiram para o campinho de futebol alagado quando viram os soldados todos aflitos. O barranco já estava descendo na direção da equipe. A reportagem do Estado e dois moradores foram os primeiros resgatados, em um helicóptero da Marinha que chegou em dois minutos à região. Um helicóptero da Polícia Militar estava logo atrás para evacuar outros três moradores, e uma aeronave da Força Aérea aguardava a poucos segundo dali para resgatar os 11 homens da Força Nacional. Madonna continuava calma, sem latir, mas os outros cães pareciam apavorados com o barulho das hélices. No helicóptero, Josias Maciel dos Santos, de 37 anos, gritava para o piloto da Marinha, dizendo que outras pessoas da sua família estavam dormindo em sua casa e corriam risco de serem soterradas. O piloto não ouviu, mas outros dez helicópteros se dirigiam naquele momento para o Baú para resgatar "absolutamente todas as pessoas, mesmo na marra". "Não pode acontecer tudo de novo, já sofremos demais, já perdemos quase tudo", disse Josias, que passou todo o trajeto com a cabeça baixa e os olhos fechados, como se estivesse rezando. "Não vai dar tempo de tirar todas as pessoas dali."ANOTAÇÕES NO SULFITEEssa aeronave da Marinha desceu em Ilhota, a três minutos do Baú, em um outro campo de futebol. Um bombeiro já estava de prontidão para anotar em um papel sulfite todas as pessoas que estavam sendo resgatadas. Até as 16 horas de ontem, já haviam sido 25 - 12 homens, 7 mulheres e 6 crianças. Outras pessoas foram levadas para Gaspar, município vizinho. Além desses números e das histórias dos resgatados, pouco se sabe - não há informações de quantas pessoas podem ter morrido nesses novos desmoronamentos, quantas já estavam soterradas, como está a condição geológica dos morros ou mesmo quando as equipes poderão voltar a trabalhar na área. "Estamos em uma catástrofe de várias etapas", disse na tarde de ontem o tenente coronel Milton Kern Pinto, coordenador-geral das operações aéreas da Defesa Civil. "Agora temos mais desabrigados, mais mortos e mais deslizamentos, mas não conseguimos ainda saber quantos são. Evacuamos até a Força Nacional, a Polícia Ambiental e os Bombeiros. Esperamos agora uma perícia dos geólogos e geógrafos para descobrir a dimensão do problema. Estamos todos assim, presos, sem ter muito o que fazer neste momento."

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