Corregedoria da polícia vai reabrir processos sob suspeita de fraude

Após divulgação de vídeo, 5 inquéritos foram instaurados para apurar denúncias, incluindo negociação de cargos

Bruno Tavares e Marcelo Godoy, O Estadao de S.Paulo

05 de março de 2009 | 00h00

A Corregedoria da Polícia Civil e o Ministério Público Estadual (MPE) vão rever todos os processos administrativos (PAs) "fraudulentos" ou cujos policiais são acusados de "comprar" as sentenças para serem absolvidos ou reintegrados à polícia. Cinco inquéritos foram instaurados para apurar as denúncias, entre elas a de compra de cargos na Polícia Civil. O diretor-geral do órgão, Alberto Angerami, disse ontem que vai convocar para depor o advogado Celso Augusto Hentscholer Valente e seu sócio, Lauro Malheiros Neto, ex-secretário adjunto da Segurança Pública. Admitiu ser possível até chamar o secretário Ronaldo Marzagão para depor. E avisou: "Eu não me submeto a pressões." TV Estadão: vídeo mostra a negociaçãoMalheiros Neto e Valente deverão dar explicações sobre as denúncias de que comandavam um esquema de corrupção que agia no gabinete da Secretaria da Segurança Pública e sobre o vídeo divulgado na edição de ontem pelo Estado, no qual Valente supostamente vende cargos importantes na polícia e cobraria propina de policiais corruptos para absolvê-los em PAs. As imagens, feitas em 2007, foram gravadas por um investigador e por seu advogado. À época, Malheiros Neto era secretário adjunto e Valente, seu primo, cuidava do escritório de advocacia que dividiam antes da nomeação do primeiro para o cargo. Malheiros Neto saiu da secretaria em maio de 2008, em meio às denúncias de que havia beneficiado o investigador Augusto Pena, preso sob a acusação de achacar líderes do Primeiro Comando da Capital. Em 4 de fevereiro, Pena fez a delação premiada. Acusou Valente e o primo de comandarem um esquema de arrecadação de dinheiro de bingos, venda de cargos e sentenças de PAs. Correndo risco de morrer no presídio da Polícia Civil, Pena foi transferido para outra prisão.Angerami afirmou que tomou a decisão de desmembrar a investigação sobre as denúncias de Pena em cinco inquéritos, por enquanto. Outros mais podem ser instaurados. Além disso, recolheu cópias dos PAs sob suspeita. Segundo Pena, três delegados pagaram de R$ 100 mil a R$ 250 mil para serem nomeados para cargos importantes no Departamento Estadual de Trânsito (Detran) e no Departamento de Polícia Judiciária da Capital (Decap). No vídeo, Valente explica ao investigador como transferir um delegado do Decap para o Detran: "Você tem de pegar alguém que tem uns 200, 300 paus na mão.""Por que se paga para ocupar um cargo importante? Qual o objetivo de quem ocupa o cargo? Ele teria condições para pagar, ganhando um salário que não é dos melhores? Investigamos enriquecimento sem causa. Os objetivos de quem paga são inconfessáveis. Pagam para auferir vantagens indevidas em razão do cargo que vão ocupar", afirmou Angerami. O corregedor repudiou as declarações de Valente no vídeo - de que o inquérito policial "não vale b... nenhuma" e os processos administrativos são "tudo baboseira (sic)". "É deplorável o que ele disse e não se coaduna com a figura de um operador do Direito. É uma afronta à lei brasileira, pois o inquérito é instrumento de garantia do cidadão."Ao ser questionado ontem sobre como se sentia ao ver que seu nome havia sido usado na suposta negociata (no vídeo, Valente diz a seu interlocutor que ninguém tinha ideia do conceito que o Laurinho tinha com o governador), José Serra abandonou a entrevista coletiva. Marzagão se dirigiu aos jornalistas dizendo que "o assunto é comigo, não com ele". "Tudo o que é objeto da delação será verificado; serão ouvidas inclusive as pessoas que supostamente teriam pago (propina)", afirmou Marzagão. Sobre Malheiros Neto, declarou: "Nunca soube nada a respeito dele e, portanto, vamos aguardar o que mostram os fatos."

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