Corregedoria indicia 14 policiais por achaques a Abadía e El Negro

Acusados de corrupção teriam recebido ao menos R$ 2,7 milhões; delegado obtém liminar contra indiciamento

Marcelo Godoy, O Estadao de S.Paulo

10 Julho 2009 | 00h00

A Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo indiciou 14 policiais em quatro inquéritos diferentes sob a acusação de terem extorquido pelo menos R$ 2,7 milhões dos traficantes colombianos Juan Carlos Ramirez Abadía e Ramón Manoel Yepes Penagos, conhecido como El Negro. Outros três policiais são suspeitos, um dos quais obteve no Tribunal de Justiça uma liminar para que não fosse indiciado no inquérito. Ao todo são investigadas cinco extorsões praticadas por policiais contra os colombianos e integrantes de suas quadrilhas. Abadía, que foi extraditado em 2008 para os Estados Unidos, era o chefão do cartel do Norte do Vale quando foi preso em 2007 pela Polícia Federal em São Paulo. Logo depois, descobriu-se que ele pagou resgate de três de seus subordinados e da mulher de um deles, sequestrados e achacados por policiais de Diadema, do Departamento Estadual de Investigações sobre Narcóticos (Denarc) e do Departamento Estadual de Trânsito (Detran), todos da polícia de São Paulo. El Negro é o traficante que teria convencido policiais do Denarc de que era mineiro de Borda da Mata, dizendo chamar-se Manoel de Oliveira Ortiz. O bandido, procurado pela Interpol por mandar toneladas de cocaína à Europa, disse que custou 400 mil para que os policiais o mandassem para a cadeia com a identidade falsa. Lá ficou incógnito até ser descoberto este ano por policiais do Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic). No caso de Abadía, os inquéritos sobre os achaques permaneceram nas gavetas da corregedoria por dois anos. Apesar de reconhecimentos das vítimas, da apreensão de carro dado para pagar suposta propina e das provas da PF, nenhum policial civil era indiciado. O imobilismo durou até abril, quando a nova diretora da corregedoria, delegada Maria Inês Trefiglio Valente, pediu cópia ao Ministério Público Estadual da fita de vídeo em que Abadía fazia as revelações. "Para acabar com o tráfico de drogas em São Paulo, basta fechar o Denarc", disse o colombiano aos promotores do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco). Em junho, o secretário da Segurança, Antônio Ferreira Pinto, decidiu pedir cópias das investigações e constatou que havia indícios suficientes de autoria. Ferreira lamentou a demora das investigações, o que teria prejudicado o trabalho de obtenção de provas. Em menos de 20 dias, o delegado Caetano de Paulo Neto, presidente dos inquéritos, indiciou a primeira leva de policiais suspeitos. APETITE O primeiro caso que contou com indiciamentos foi o achaque contra Daniel Braz Maróstica, apontado pela PF como o homem que operava os negócios de Abadía no Brasil. Cinco investigadores foram acusados de levar dinheiro e uma motocicleta. Os acusados teriam procurado Maróstica porque diziam terem sido passados para trás, "terem levado uma bica" de colegas que haviam tomado US$ 400 mil do traficante Henri Lagos, também colombiano e do grupo de Abadía. Lagos havia sido sequestrado meses antes por policiais do Denarc - trata-se do único caso em que não há indiciados até agora. Abadía contou que pagou pessoalmente o resgate. Como não conseguiram achar Lagos - que fugira do País assustado com a virulência e o apetite dos policiais - para novos achaques, os investigadores resolveram apanhar Maróstica "para não ficar no prejuízo". A busca por mais dinheiro levou os corruptos a sequestrarem a mulher de Maróstica. Ana Maria Stein foi abordada por três homens na Avenida Indianópolis, na zona sul, e levada à sede do Denarc pelos policiais. Pensavam que ela fosse mulher de Lagos. Ela só foi liberada depois de um acerto feito com a intermediação do investigador Diogo. Os policiais exigiram R$ 150 mil para soltá-la. Maróstica ainda teve de pagar R$ 50 mil para acertar a documentação de Toyota Land Cruiser que estava em seu nome depois que a irregularidade foi descoberta por um policial que trabalhava no Detran que era amigo dos policiais do Denarc. O Toyota foi apreendido pela corregedoria. Por causa dessa extorsão, mais três investigadores foram indiciados. INJUSTIÇA Foi nesse caso que o delegado Pedro Luiz Pórrio conseguiu uma liminar em um habeas corpus no Tribunal de Justiça para evitar que a corregedoria o indiciasse pelo crime. Pórrio era o chefe da equipe que deteve Ana Maria, segundo ele, para "averiguações". Pórrio negou qualquer participação no acerto e se diz vítima de injustiça. O terceiro caso em que houve indiciamentos foi o que teve como vítima o piloto André Luiz Telles Barcellos, que era tido como braço direito de Abadía. Os policiais do Denarc exigiram R$ 1 milhão, mas se contentaram com US$ 220 mil e R$ 85 mil que o piloto carregava em uma sacola quando foi abordado. Dois policiais foram indiciados. A corregedoria ainda não concluiu esses inquéritos. Não se descarta a possibilidade de outros policiais serem indiciados.

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