Correios podem romper contrato suspeito

Ministro das Comunicações disse que analisará existência de vínculos entre o diretor da estatal e a MTA, que ganhou licitação de R$ 44,9 milhões

Karla Mendes, Leonencio Nossa / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2010 | 00h00

Lado a Lado. Coronel Artur (à esq.) com o presidente dos Correios, David de Matos, e Filardi                

 

 

 

 

 

Se comprovado o vínculo do diretor de Operações da Empresa de Correios e Telégrafos, coronel Eduardo Artur Rodrigues Silva, com a Master Top Linhas Aéreas (MTA) - ou com consultorias que prestam serviços para companhias do setor aéreo - o ministro das Comunicações, José Artur Filardi, vai recomendar a extinção dos contratos.

"Se confirmar que existe (o vínculo), recomendo que esse contrato deva ser rompido", afirmou Filardi, em entrevista ao Estado. O ministro disse que fará a análise para ver "se existe conflito (de interesses)".

Reportagem publicada na edição de ontem mostrou que 20 dias antes de o coronel ser escolhido para a direção de Operações dos Correios, a Master Top Linhas Aéreas arrematou o contrato de uma das principais linhas da estatal, a Linha 12, que opera no trecho Manaus-Brasília-São Paulo (ida e volta).

A empresa, com sede em Campinas (SP), venceu o pregão eletrônico com lance de R$ 44,9 milhões - o equivalente a 13% do valor total da malha e 14% da capacidade de carga da estatal.

Ao assumir a diretoria nos Correios, em 2 de agosto, o coronel entregou o comando da MTA nas mãos da filha Tatiana Silva Blanco. O resultado dessa triangulação é que a empresa tem agora a família Rodrigues da Silva como contratada e contratante.

O ministro disse que não conhecia o coronel antes de ele ser empossado diretor dos Correios. Segundo Filardi, na reunião em que foi apresentada a lista dos nomes que assumiriam a presidência e as diretorias de operações e de gestão de pessoas da empresa - que incluía o nome do coronel - apenas foi perguntado aos presentes se havia alguma objeção aos indicados.

O Estado apurou que o nome do coronel foi uma indicação sustentada pela Casa Civil e teve o apoio do advogado Roberto Teixeira, compadre do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Como não houve manifestação contrária às indicações, disse o ministro, foi feita uma checagem para ver se havia algum impedimento legal ou fiscal. Nada foi constatado e os indicados foram empossados.

O ministro das Comunicações disse ao Estado que desconhecia ligações de coronel Artur, também conhecido como "coronel Quaquá", com o setor aéreo. "Se houver, parece incompatível (com o cargo)."

Nomeações. Dos três nomes indicados para assumir a direção dos Correios, nenhum partiu do Ministério das Comunicações. Uma fonte do governo disse ao Estado que o PMDB, partido que comanda a pasta, não indicou ninguém diante do caos que tomou conta da estatal e da iminência de um apagão postal na véspera das eleições porque "era melhor tirar o ministério do poder do que deixar acontecer o apagão postal".

Na gestão anterior, vários integrantes da direção da estatal, incluindo o ex-presidente Carlos Henrique Almeida Custódio, haviam sido indicados pelo PMDB.

Segundo outra fonte do governo, a indicação do coronel Artur para a Diretoria de Operações faz parte do lobby para tirar do papel a criação de uma empresa de logística, dotando os Correios de uma frota própria de aeronaves para fazer o transporte de cargas. Uma das propostas em discussão prevê que a estatal compre ou arrende aviões, em vez de ter participação em uma companhia aérea cargueira.

A entrada do coronel nos Correios teria como estratégia usar sua "expertise" do mercado para fazer aquisição de aviões usados, já que, com a crise, muitas empresas não estão dando conta de pagar os financiamentos dessas aeronaves.

A medida provisória que poderá dar aos Correios poderes para ter uma subsidiária de logística ficou para o próximo governo. O presidente Lula já sinalizou que a MP não será editada este ano. O ministro Filardi, então, retirou a proposta do Planalto.

PARA LEMBRAR

Troca de comando

No dia 28 de julho, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva demitiu a cúpula dos Correios por temer que o fisiologismo partidário ampliasse a crise administrativa na estatal e respingasse na campanha da ex-ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, à Presidência da República. A troca no comando da empresa ocorreu depois que o presidente Lula encarregou a Casa Civil e os ministérios das Comunicações e do Planejamento de fazer uma reestruturação da empresa.

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