Arquivo pessoal
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Corrente do Bem acolhe idosos por meio de cartas

Textos escritos por voluntários são enviados para instituições que recebem quem está longe da família

Aline Reskalla, especial para o Estadão

26 de dezembro de 2021 | 05h00

O ano foi especialmente difícil para as pessoas mais velhas. Além de serem do grupo de risco na pandemia, o isolamento veio se somar às principais causas de depressão nos idosos: abandono familiar e sentimento de inutilidade. Para aqueles que estão longe dos familiares, então, o distanciamento trouxe ainda mais sofrimento.

"Com a falta de visita, de integração comunitária e de abraços, os idosos ficaram mais tristes e irritados", relata a assistente social Nádia da Silva Santos Costa, 49 anos, do Lar de Idosos Nossa Senhora da Conceição, em Aracaju (SE). Mas, um meio de comunicação já em desuso na era da internet voltou à cena como um alento contra a solidão: as cartas de papel. 

À frente da Associação Keralty do Brasil, com sede em Belo Horizonte, a voluntária mineira Erika Wendy Nunes, 38 anos, criou no início da pandemia o projeto Corrente do Bem, que já no primeiro mês teve mais de mil interessados em escrever as cartinhas. Desde então, 50.289 correspondências foram enviadas. 

Erika já trabalhava com assistência a idosos em situação de cuidados paliativos antes de março de 2020. E conta como tudo começou: "Os pacientes se sentiram muito sós com a suspensão das visitas, e nós ficamos bastante comovidos. Pensamos primeiro no WhatsApp, mas são pessoas geralmente debilitadas e sem acesso a telefone celular. Então pensei: 'por que não fazer cartas-surpresa?'". No primeiro mês, foram quase mil inscrições na plataforma digital Atados, uma parceira da Keralty nesse projeto. 

"Hoje estamos em 22 Estados e até no exterior. São muitas pessoas trabalhando nos bastidores", diz. As cartinhas são manuscritas e digitalizadas para serem enviadas às instituições que acolhem idosos, onde são impressas e entregues a eles, a grande maioria em situação de vulnerabilidade e de abandono. Cada mensagem passa por uma equipe de 60 a 70 pessoas que fazem a revisão – já houve casos em que o conteúdo foi considerado inadequado por ser depressivo.

Adaptação

No Lar Nossa Senhora da Conceição, em Aracaju, Nádia Costa foi a ponte entre os voluntários e os 60 idosos do local, entregando e lendo para eles as cartas que chegaram. "Com a pandemia, tivemos de nos readaptar, não tinha aquela circulação de gente, então fomos atrás do que poderíamos fazer, como tarde de cinema, pintura e jogos. Mas, as cartinhas foram o diferencial, uma forma de receber notícias, em mãos, de pessoas que estão lá fora", afirma a assistente social. 

Ela conta que a Associação Keralty entrou em contato com a instituição, que avaliou o projeto como de "extrema relevância". "Passei uma lista com as características que achávamos relevantes para eles. Alguns idosos não conseguem fazer a leitura, por problemas de visão ou mesmo alfabetização. Então, eu li para eles, e todos guardaram as cartinhas na esperança de que, quando a pandemia passar, possam receber a visita do voluntário."

Uma delas é Maria José Feitosa, 85 anos, que não sabe ler. "Chegou hoje uma carta, recebi agora de tarde. Fiquei muito feliz, emocionada. Em cada momento que a gente tem uma alegria é um alívio, eu penso assim", disse a sergipana. Mesmo confundindo a data que a cartinha chegou, dona Maria José não tem dúvidas do sentimento bom que a surpresa trouxe – um afago nestes tempos de visitas restritas e isolamento.

A cartinha dela foi escrita por Jessica, uma estudante de 18 anos. E começa assim: "Olá, dona Maria José. Adoro conversar, bater um papo legal com as pessoas. E, olha só, apesar de ser mais nova, assim como a senhora, amo dançar um forrozinho. Acho que, nesse ano em que está sendo tudo tão estranho, não poder dançar (...) nas festas que a gente gosta não deve ter sido algo bom". 

Jessica, então, afirma que dona Maria José não está sozinha, e cita um frase que aprendeu com a mãe. "A vida é complicada. Nem sempre as coisas saem como a gente gostaria que acontecessem." E acrescenta: "Tudo vai ficar bem".

Emoção

Segundo a assistente social Nádia, que leu a carta para dona Maria José, falar do filho no texto foi marcante. E a idosa diz que ficou mesmo emocionada. "Mas não chorei. Só choro quando meu filho vem me visitar e vai embora", afirma. Ela lembra o quanto foi difícil deixar o lar. Dona Maria José, que era dona de casa e costurava, ficou viúva há oito anos.

"O mais interessante é que esse trabalho faz bem para as duas partes, pois estreitamos laços. Nem nos meus melhores sonhos eu imaginava que daria tão certo", diz Erika Wendy. Ela própria tem passado por um momento difícil. Depois de perder o pai e o irmão, viu a mãe morrer de câncer há um ano. "Sem esse movimento eu acho que teria enlouquecido", desabafa.

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