''Coube aos governos militares esvaziar a cidade para completar transferência''

ENTREVISTA[br][br]Marly Motta, Historiadora do Centro de Pesquisas e Documentação da FGV

Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2010 | 00h00

A historiadora Marly Motta, do Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC-FGV), conta que a transferência efetiva da capital do Rio de Janeiro para Brasília demorou muito além da data oficial, que hoje marca o cinquentenário de Brasília.

Na primeira metade da década de 60, mesmo após a mudança oficial, o governador da Guanabara, Carlos Lacerda (UDN), tentou manter a importância nacional da cidade, que permanecia como caixa de ressonância da opinião pública do País. O golpe definitivo na "capitalidade" do Rio ocorreu durante o regime militar, diz ela.

Como foi a mudança?

Foi lenta e se estendeu por toda uma década. Mesmo porque Carlos Lacerda, primeiro governador do Estado da Guanabara, investiu na manutenção da capitalidade do Rio. A Guanabara era um Estado-capital, na medida em que se mantinha como centro nervoso do País, e sua principal caixa de ressonância. Coube aos governos militares esvaziar essa capitalidade e muda-la para Brasília,

A saída da capital determinou a decadência econômica do Rio?

É inegável que o Estado da Guanabara sofreu um baque em sua economia. No entanto, durante bastante tempo o governo federal sustentou boa parte da máquina pública do novo Estado. As tentativas de manter um lugar de destaque no panorama industrial do País, apesar de razoavelmente bem-sucedidas, não foram capazes de superar a rapidez da evolução das indústrias paulista e mineira.

Por que a sociedade carioca não reagiu negativamente à perda da capital?

Uma das explicações tradicionais para as dificuldades de articulação da sociedade carioca em defesa de seus interesses era a excessiva interferência da União na política da cidade. Por muitos, a saída do governo federal e a possibilidade de o eleitorado carioca eleger diretamente seus governantes eram percebidas como elementos positivos para o que alguns chamavam de "liberação do Rio". A percepção de que a mudança havia sido uma perda só seria construída posteriormente.

Como Carlos Lacerda se posicionou em relação à mudança? Lacerda teve, ao longo de processo de discussão da transferência da capital para Brasília, uma posição ambígua. Ora apoiava a transferência da capital e até mesmo a reincorporação da cidade ao Estado do Rio, ora criticava violentamente Brasília e denunciava a "facada nas costas" que o governo de JK estava dando nos cariocas. Políticos e partidos tiveram posição cambiante, em função da avaliação do que poderia ser mais interessante para suas carreiras.

O que teve mais impacto: a mudança da capital ou a fusão com o velho Estado?

A fusão, certamente. Se a saída da capital foi vista como uma "liberação", a junção com o antigo Estado do Rio foi entendida como uma imposição da ditadura militar, que não gostaria da pretensa "rebeldia" do eleitorado carioca. A falta de consulta às populações agravou essa percepção de castigo.

Os cariocas demoraram a perceber que tinham perdido com a mudança?

A memória da perda e da traição foi sendo construída na medida em que as condições de vida foram se deteriorando. Em vez de enfrentar o presente de dificuldades e preparar o futuro sustentável, a sociedade carioca se volta para o passado em busca do elo perdido de sua possível felicidade eterna.

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