Crack já lidera as vendas em alguns morros cariocas

No Jacarezinho, há um terreno baldio reservado para os usuários; consumo não é exclusivo de pobres

Pedro Dantas, O Estadao de S.Paulo

29 de janeiro de 2009 | 00h00

O crack já lidera a venda de entorpecentes em algumas favelas do Rio. Investigações da Delegacia de Combate às Drogas (Dcod) apontam que na Vila dos Pinheiros, no Complexo da Maré, e na Favela do Jacarezinho (ambas na zona norte) a venda da pedra feita da sobra do refinamento da cocaína, misturada a bicarbonato de sódio e água já superam a maconha e a cocaína.No Jacarezinho, os traficantes reservaram um terreno baldio para os usuários. No muro foi pichado "Benvindo à cracolândia (sic)". "A venda do crack entrou em definitivo na cultura das favelas. É algo concreto e irreversível. Estamos concentrados agora em apreender os carregamentos para impedir que a droga chegue aos usuários", afirmou o delegado titular da Dcod, Marcus Vinícius Braga.Em setembro, Braga revelou ao Estado que a venda de crack foi uma exigência dos traficantes paulistas do Primeiro Comando da Capital para negociar cocaína com o Comando Vermelho. Hoje, o delegado diz que as demais quadrilhas do Rio aderiram à venda da droga. "A Vila dos Pinheiros é dominada pela Amigos dos Amigos (ADA) e é uma das líderes na venda do crack no Rio." Introduzido no mercado das drogas do Rio ao preço de R$ 1, o crack hoje é vendido a R$ 5 nas favelas mas, segundo o delegado, pode chegar a R$ 15 mesmo nas comunidades pobres. "Já apreendi pedras estimadas em R$ 30", revelou o delegado. Ontem, o secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, afirmou que o crack é "um problema nacional". "É droga barata que está viciando adolescentes em áreas de exclusão social e economicamente sem nenhuma perspectiva. Não é uma droga que está dentro destas comunidades. É uma droga da pobreza."Psiquiatras que atendem a dependentes, porém, afirmam que o crack não é mais exclusivo da população carente. "A mistura atraiu a classe média que usa o crack como uma maconha turbinada", afirma o psiquiatra e professor Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Jaime Werner. Ele conta que, em 2005, uma pesquisa com um grupo de 18 crianças acolhidas nas ruas pela Prefeitura do Rio mostrou que todas usavam a droga. "Tivemos acesso ao exame de urina de um grupo de 18 meninos. Todos apresentavam traços de cocaína e maconha. Isto é um indicativo do uso do crack entre eles."De acordo com Werner, o quadro não é diferente no Estado. Em Niterói, onde atende pelo Grupo de Estudo e Tratamento do Alcoolismo e Outras Dependências, ele enumera os casos dramáticos de dependentes químicos. "Me espanto com os casos entre as meninas. Uma criança de 9 anos não queria se separar do abusador que foi preso por considerá-lo bonzinho, pois fornecia a ela o crack em troca de sexo."No Núcleo Estadual de Pesquisa e Atenção ao Uso de Drogas (Nepad) da Uerj, o primeiro dependente de crack apareceu no carnaval de 2008. Após menos de um ano, os usuários da droga já representam 30% dos 300 dependentes que procuraram ajuda. " Foi um crescimento de 10% em relação a dezembro. Já temos casos de pessoas empregadas, moradoras da zona sul e de classe média que estão perdendo tudo. O usuário se vicia rápido e quase sempre", diz a diretora do núcleo, Maria Thereza de Aquino. "O consumo de duas a três pedras por dia leva à morte em até nove meses."

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