Cracolândia: operação leva 12 para hospitais

Viciados são socorridos sem ter condições de parar em pé; apesar do policiamento, o consumo de drogas na região central de SP continua

Diego Zanchetta, O Estadao de S.Paulo

24 Julho 2009 | 00h00

Em dois dias, os agentes de saúde que participam da ação integrada de órgãos públicos na região da cracolândia conseguiram realizar a internação de 12 pessoas. O objetivo da operação conjunta entre Estado e Município é levar para tratamento médico os cerca de 400 dependentes e moradores de rua que circulam e dormem nos bairros da Luz e dos Campos Elísios, no centro velho de São Paulo. Para conseguir o êxito com 12 dependentes, os agentes fizeram 332 abordagens e 66 encaminhamentos médicos. Alguns viciados já passaram duas vezes pelas entrevistas feitas na base montada pela Secretaria Municipal da Saúde, no Largo Coração de Jesus. Às vezes, eles procuram os agentes, dizem querer ajuda e comida, choram e, após uma hora de conversa e sem muita explicação, pegam seus cobertores, o cachimbo e voltam às ruas para fumar. Foi possível observar essa cena ontem pela manhã, quando o jovem Alisson, de 19 anos, estava prestes a ser levado a um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) por duas agentes. Após concordar com o atendimento, de repente ele mudou de ideia. "Tia, com os médicos a gente bate de frente. Não vou para hospital coisa nenhuma", desistiu o usuário. A agente ainda insistiu, seguiu o jovem pela rua e continuou conversando com ele numa calçada. "Sai daqui, tia, já falei que vou fumar, vai embora", gritou o jovem, transtornado. Para os coordenadores da ação, o trabalho de convencimento para retirar da rua o consumidor de crack é o mais difícil na área da toxicologia. As 12 internações até agora foram consideradas um sucesso. A recusa ao tratamento é o mais natural nessa primeira fase, segundo os agentes. "Quando você tira um viciado de crack da rua, é uma vida que está sendo salva. Não é pouca coisa. A pessoa que é abordada agora pode não aceitar o tratamento, mas daqui a seis meses ela nos pedirá auxílio. Confiamos que a proximidade entre agente e usuário vai se solidificar mais a cada dia", afirma Rosângela Elias, coordenadora do programa de Saúde Mental da Prefeitura. Os agentes também tentam entrar em sintonia com os policiais militares que ocupam a região. Ontem, era visível a irritação de médicos e enfermeiros no momento em que policiais paravam o carro e ficavam analisando quem estava sendo abordado. "Precisamos de um tempo para conversar. Mesmo que eles não queiram o tratamento, precisamos investigar quem são seus parentes, tentar reconstruir de alguma forma os laços familiares", disse uma agente, que pediu sigilo do nome. SEM LOCOMOÇÃO Duas das sete internações realizadas ontem foram acompanhadas pela reportagem do Estado. Nas duas situações, as usuárias foram socorridas sem ter condições de permanecer em pé. Por volta das 9h30, usuários foram à base dos agentes dizer que uma garota estava havia três dias sem conseguir sair da Praça Júlio Prestes. Uma ambulância do Samu foi ao local e socorreu Andressa, de 17 anos, levada para a AMA Boraceia. Com a coluna travada, a jovem não conseguia mais levantar. Ela só revolveu pedir ajuda por medo de morrer de frio. O segundo caso acompanhado também envolveu uma garota, com cerca de 19 anos. Sem documento algum, ela chegou à base carregada por três agentes, em meio a um surto psicótico. A garota estava fumando havia cinco dias seguidos, sem dormir. Ao mesmo tempo que a menina era socorrida, uma mulher de 40 anos que fumava na calçada, do lado de fora da base, desdenhava da agente que fazia sua abordagem. "Tic tac o tempo vai passando e a gente aqui sentado num banquinho conversando", debochava a dependente, cantando letra do rapper Sabotage, assassinado em 2003 na zona sul. Os agentes também conseguiram encaminhar um morador de rua para tratamento médico. Antonio Belarmino de Jesus, de 66 anos, foi encontrado pelas agentes perto do Shopping Luz. Apesar da resistência inicial, ele aceitou o tratamento ao saber que poderia resolver um problema de infecção urinária. "Há muitos anos não consigo fazer xixi direito, não sei o que é", contou às agentes. A PM não informou o número de prisões feitas ontem. Durante todo o dia policiais fizeram revistas nos grupos de viciados que continuam ocupando as esquinas. Para Cecília Mota, coordenadora do Projeto Quixote, entidade que há 15 anos trabalha com usuários da cracolândia, internar 12 pessoas em dois dias é algo sem precedentes na área. "Esses jovens vivem em um mundo muito diferente. Falar em saúde é exatamente o oposto do que eles vivem", avalia.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.