Cracolândia resiste à revitalização

Nova Luz transfere usuários de crack para outras ruas do centro; Prefeitura investe em assistência social

Andressa Zanandrea, Aline Nunes e Elisa Estronioli, O Estadao de S.Paulo

07 de junho de 2008 | 00h00

O projeto de demolir a Cracolândia e revitalizar o bairro da Luz, no centro de São Paulo, apenas empurrou um antigo problema para algumas quadras de distância. Após o início da demolição dos primeiros imóveis para o surgimento da Nova Luz, os velhos usuários de crack se espalharam pelas Ruas Conselheiro Nébias, Guaianases, dos Gusmões e Vitória. A reportagem flagrou um grupo de 20 pessoas, com os típicos cachimbos para consumo da droga, na madrugada de quarta-feira.Os usuários vagavam sozinhos, em duplas ou trios, de um lado para o outro, às vezes até mesmo em círculos, à espera do próximo cachimbo. Os traficantes chegavam, vendiam o crack e, nesse vaivém, os grupos se formavam ao longo de toda a noite para o consumo da droga. Enquanto os pontos de ônibus começavam a ficar repletos de passageiros que haviam acordado cedo para trabalhar, por volta das 5h30, os usuários ainda acendiam os cachimbos e perambulavam pelas ruas e calçadas da Nova Cracolândia."Depois que tiraram (os usuários) de perto da (Estação da) Luz, eles vieram para cá (Nova Cracolândia). Antes, havia bem menos. Você via alguns passando na rua, mas eles não faziam ponto aqui", contou Manuel Alisson, dono de um depósito de bebidas na Rua Guaianases. A migração ocorreu porque a Nova Luz prevê a reurbanização de mais de 200 mil metros quadrados entre as Avenidas Rio Branco, Duque de Caxias, Ipiranga e Cásper Líbero e a Rua Mauá. Os imóveis degradados vão dar lugar a prédios públicos e particulares, que receberão incentivos fiscais.Alisson confirmou que o movimento é intenso durante a madrugada, quando lojas estão com as portas fechadas. Conforme amanhece e os comerciantes abrem as portas dos estabelecimentos, os usuários de crack se dispersam, mas, mesmo durante o dia, é possível vê-los em grandes grupos na região, segundo o comerciante.Na madrugada, usuários e traficantes de drogas aproveitam o pouco movimento para vender e usar os entorpecentes. Não havia polícia na região, apesar de o 3º Distrito Policial, na Santa Ifigênia, ficar a menos de 300 metros dali. Segurança ajuda, mas, para o coronel Álvaro Camilo, comandante da Polícia Militar na região, antes de ser caso de polícia, a concentração de usuários de crack é problema social e de saúde. "A atuação da polícia tem limites. Há muita dificuldade de continuidade de tratamento após a abordagem policial." Segundo ele, os traficantes encontram público-alvo na população vulnerável de rua e dos cortiços - há cerca de 2 mil pessoas morando no centro.Desde o começo do ano, a PM registrou 7.867 abordagens, com 1.500 conduções a albergues, delegacias e prontos-socorros. O total de drogas apreendidas chega a 3 quilos. "Aqui não há traficante grande, mas muitos que comercializam para alimentar o próprio vício", diz o coronel. Questão de saúde pública, a Prefeitura vai instalar no centro oito AMAs com profissionais de psiquiatria e assistência social. "A Luz é uma região com dependentes químicos graves, o que exige o acompanhamento de profissionais regularmente", afirma o secretário municipal das Subprefeituras, Andrea Matarazzo. Para acelerar o processo de revitalização, a PM e assistentes sociais fazem rondas. "Não são todos que querem sair das ruas. No entanto, insistimos no trabalho lento e gradual."

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