Craque nas panelas e na guitarra

Benny Novak, chef do Ici Bistrô e da Tappo Trattoria, passa o dia na cozinha; nas folgas, leva família para comer fora

Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

04 de novembro de 2007 | 00h00

Benny Novak, um sujeito um tanto sério, cabelo grisalho todo bagunçado, barba rala por fazer e um constante ar de espanto no rosto, só exibe seu nome de ascendência polonesa bordado num avental de chef de cozinha por uma série de equívocos e escolhas erradas. Lição número um: nunca faça matrícula em uma escola de administração, ainda mais quando você odeia administração. Dois: não deixe a escola de administração prestes a concluir o curso, principalmente quando você não tem a mínima idéia do que vai fazer da vida. Por fim, se você já sabia que administração não era muito a sua praia, não passe os oito anos seguintes trabalhando como administrador de condomínios, ainda mais ao lado do pai."Realmente odiava aquilo ali, era terrível", diz ele, sem parecer estar fazendo graça. "E trabalhar na mesma sala que seu pai? Péssimo, péssimo... O que me distraía era realmente os meus dois hobbies, cozinhar para os amigos e tocar guitarra com minha banda de blues. Só queria saber disso, não tinha paciência para o escritório." Os erros da juventude, no entanto, só o ajudaram a perceber que os hobbies eram na verdade a vocação. Saindo dos jantares informais que fazia para os amigos - quando passava horas queimando tomates para tirar a pele e fazer molho caseiro (quando não queimava os pratos) -, Novak virou um dos mais badalados chefs de cozinha de São Paulo. Seu Ici Bistrô, aberto em 2002, virou referência em Higienópolis e na seção de restaurantes franceses dos guias. Há duas semanas, ele inaugurou a segunda casa, o charmoso italiano Tappo Trattoria, nos Jardins."Eu amo esse frio no estômago de trabalhar em um novo restaurante, a ansiedade para saber a reação das pessoas e dos críticos, a correria", conta. "Demorei pra perceber que era fanático por gastronomia, mas na verdade desde pequeno eu pedia para esquentar a minha própria comida e ajudar a preparar o almoço. Era o que eu tinha de fazer da vida." Mas e a guitarra, onde entra nesta história? "Ainda sou apaixonado por música e continuo na banda de blues, que se chama Jack and The Daniels. Minha cozinha é que nem minha guitarra, realmente não vivo sem os dois. Para ter meu restaurante, aprendi rapidamente as técnicas da gastronomia; para tocar blues, decorei as escalas musicais. O restante é alma, bom gosto. Sem frescura."NO BATENTETamanha paixão pelo que faz é que anda segurando Benny Novak em pé. Literalmente. Para nada dar errado no primeiro mês de vida do Tappo, que recebe cerca de 80 pessoas por noite (o Ici, bem maior, recebe quase o dobro), ele anda acordando lá pelas 9 horas - quando consegue dormir, o que tem sido complicado nos últimos tempos por causa da ansiedade. Às 11 horas, já está no batente dentro da cozinha. Fica até umas 15 horas, quando acaba o almoço, passa em seu apartamento em Higienópolis para tentar encontrar sua mulher Natasha e seus filhos Sofia, de 5 anos, e Fernando, de 2 anos, e volta no fim da tarde para ficar enfurnado no restaurante até a madrugada. "Não tenho tido tempo para mais nada", assume ele, que mal consegue ver os jogos do São Paulo, seu time do coração. "Só posso ter as madrugadas livres. A única coisa que consigo fazer hoje em dia é tomar uma cerveja na Vila Madalena com amigos de outros restaurantes, ou comer um cheese burguer no Fifties da Praça Vilaboim." E, mesmo nas folgas, o chef não consegue se ver longe da gastronomia. "Se não estou descansando, levo minha família para comer fora. Nunca mais cozinhei em casa. Vou muito no Spot, minha filha adora lá."RÃ COM ALHOAs crianças, diga-se de passagem, lembram muito aquele garotinho que enchia a paciência da mãe para comprar brócolis num conhecido comercial de televisão. Os dois são fãs de sabores estranhos, como rã com purê de alho, pepino azedo e alcachofra. "E eu nunca forcei eles a nada", jura. "Comem de tudo. Acho que o Fernando, principalmente, tem jeitão de me substituir como chef de cozinha."

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