Wilton Junior/AE
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Crea-RJ: 80% das mortes poderiam ter sido evitadas na região serrana

Relatório preliminar da inspeção realizada no Rio aponta que tragédia poderia ser menor se legislação ambiental fosse respeitada pelas prefeituras

Pedro Dantas - O Estado de S. Paulo,

26 de janeiro de 2011 | 12h19

RIO - Ao apresentar o relatório preliminar da inspeção na região serrana do Rio, o presidente do Conselho Regional de Arquitetura, Engenharia e Agronomia do Estado (Crea-RJ), Agostinho Guerreiro, disse que 80% das mortes em decorrência das chuvas seriam evitadas, caso as prefeituras das cidades afetadas respeitassem a legislação ambiental do País. "Técnicos apuraram que o desmatamento fez a velocidade da cabeça-d'água atingir mais de 100 km/h em alguns trechos", afirmou.

 

O documento lembra que a ocupação dos morros com inclinação maior de 45º é crime ambiental, porque são considerados Áreas de Preservação Permanente e recomenda a retirada da população destes locais. Além do diagnóstico, o Crea-RJ sugere um conjunto de obras de baixo custo para evitar a repetição da tragédia. "São intervenções simples nas encostas e pequenas barragens no alto dos rios para controlar a velocidade e o volume das águas", declarou o presidente da entidade.

 

Os engenheiros recomendam a instalação de pequenas soleiras de encostas para reter o material erodido e a abertura de valas para a retenção das águas, que poderiam evitar os deslizamentos. Nos rios, os engenheiros sugerem pequenas e médias barragens nas nascentes para formar reservatórios de cheias e minimizar as cabeças d'água, além de ondulações no fundo dos córregos para diminuir a velocidade da correnteza.

 

O documento enfatiza que são necessários o reflorestamento dos morros e a recuperação da vegetação nas margens dos rios

As inspeções foram realizadas nos três dias seguintes a tragédia.

 

O diagnóstico sobre as possíveis causas aponta que as chuvas tiveram uma magnitude maior do que o normal, mas o presidente do Crea-RJ refutou a tese de desastre natural pelo excesso de chuva. "Isto é um desserviço à população. Se o poder público tivesse removido os moradores das áreas de risco não teríamos este número de mortos", afirmou Guerreiro.

 

Planejamento. Sobre os deslizamentos das encostas, o relatório aponta que a população afetada morava sobre um terreno de "alta inclinação" e, por isso, mesmo nos casos em que as vegetações das encostas estavam preservadas, os deslizamentos ocorreram. "A vítimas não são as culpadas. Elas estavam em local de risco, porque falta planejamento na urbanização das cidades", ressaltou Guerreiro.

 

As moradias nas margens dos rios também foram consideradas agravantes para a tragédia. De acordo com o relatório, as habitações favoreceram a erosão e o assoreamento. Estes fatores agravaram o transbordamento dos rios. O documento também cita a inexistência de um plano de contingência para as enchentes.

 

O presidente do Crea-RJ afirmou que em locais como o Vale do Cuiabá, em Itaipava (distrito de Petrópolis), onde várias casas de luxo foram destruídas, também houve desmatamento da chamada vegetação ciliar (situada nas margens dos rios), que ajuda a absorver a água no período das cheias.

 

Nas páginas finais, o relatório alerta para o vazamento de chorume (resíduo líquido formado a partir da decomposição do lixo), após as chuvas, do aterro sanitário de Nova Friburgo para o rio Bengala, que corta a cidade.

 

Atualizado às 17h48

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