Cresce nº de pessoas retidas em cabine

Segundo o Corpo de Bombeiros, o chamado mais comum é para o resgate de pessoas presas entre andares

Diego Zanchetta e Vitor Hugo Brandalise, O Estadao de S.Paulo

21 de abril de 2008 | 00h00

Um quinto dos prédios da cidade de São Paulo tem elevadores que ainda precisam passar por manutenção adequada e exigida pela Lei dos Condomínios, de 1964. É o que aponta a notificação do Departamento de Controle do Uso de Imóveis (Contru) feita no começo do ano a 10.400 síndicos de edificações da cidade que não enviaram à Prefeitura o Relatório de Inspeção Anual (RIA), documento exigido desde julho de 2007.O número de imóveis que não enviaram o RIA de elevadores ou escadas rolantes feito por uma das 88 empresas credenciadas representa 19% dos 57.200 condomínios da cidade. O prazo para o envio expira no dia 30 e a multa prevista é de R$ 830. O governo diz que 9.456 condomínios notificados estão em processo de regularização."O síndico tem de estar ciente de que ele pode ser responsabilizado civil e criminalmente caso ocorra um acidente em um elevador sem manutenção", afirmou o secretário da Habitação, Orlando Almeida. A notificação do governo, segundo Almeida, também faz parte do primeiro plano do Município para a elaboração de um banco de dados sobre as condições dos elevadores da capital. "Temos muitos equipamentos da década de 60, 50. A Prefeitura precisa saber como estão as condições de cabos, amortecedores e condutores dos aparelhos."O Contru diz que a manutenção deve ser feita por empresas que constam em uma relação disponível no site da Prefeitura. As empresas têm de ter no mínimo seis técnicos, e no RIA deve constar o relatório das vistorias realizadas nos equipamentos, cuja freqüência deve ser mensal. "Empresas regularizadas seguem um roteiro preestabelecido de procedimentos quando fazem manutenção nos elevadores. O problema é que não há como saber se as empresas irregulares cumprem os procedimentos também", disse o capitão Luiz Cezar Freire, do Corpo de Bombeiros. "Acho boa a medida da Prefeitura, para evitar que empresas de fundo de quintal, sem nenhuma estrutura, realizem trabalho de segurança preventiva tão importante", afirmou Fábio Aranha, presidente do Sindicato das Empresas de Conservação, Manutenção e Instalação de Elevadores do Estado de São Paulo (Seciesp). Segundo Aranha, a manutenção mensal de um elevador custa em média R$ 250. "Muitos prédios têm até quatro elevadores e todos devem passar por essa manutenção." OCORRÊNCIASSegundo o último levantamento do Corpo de Bombeiros, o número de pessoas retidas em elevadores da capital subiu 13% entre 2005 e 2006 - de 298 para 337. "Não chegam a ser números alarmantes, mas, como a cada ano temos mais construções na cidade, o rigor na manutenção deve ser aumentado, e não o contrário", afirma o capitão Luiz Cezar Freire, do Corpo de Bombeiros. O número de pessoas que sofreram algum dano físico em elevadores - principalmente partes do corpo presas na porta - se manteve estável (24 em 2005 e 27 em 2006). "Os sensores nas portas dos elevadores podem ser avariados por motivos primários, como lavar a cabine com mangueiradas. Isso afeta os sensores e a porta pode fechar enquanto alguém estiver atravessando", afirma.O Contru informou realizar vistorias e inspeções em prédios mediante a denúncia ao órgão. Em 2007, a administração municipal realizou inspeções em 18 edificações e fez outras 21 intimações a imóveis com elevadores sem a segurança adequada. Somente um prédio foi interditado e outros dois multados.A falta de manutenção nos elevadores pode trazer transtornos no cotidiano das pessoas - o chamado mais comum, segundo o Corpo de Bombeiros, é para o resgate de pessoas presas em elevadores parados entre andares. TRAGÉDIAEm dezembro de 2002, o zelador de um prédio de Santa Cecília, no centro de São Paulo, viu a cena mais terrível de sua vida. Mário Pereira de Oliveira fazia a limpeza no elevador do edifício quando seu filho Felipe, de 2 anos e 7 meses, entrou para acompanhá-lo. O menino puxou a porta interna parcialmente, acionando o mecanismo de fechamento. O elevador começou a subir e Felipe ficou preso - tronco e braços para dentro do elevador, pernas no vão. Felipe morreu ali. Em estado de choque, Oliveira ficou junto ao corpo do filho por 40 minutos, até os bombeiros aparecerem. O elevador do edifício não sofria manutenções preventivas - apenas quando quebrava "até três vezes por dia", segundo Oliveira. Depois do acidente, o elevador foi interditado pelo Contru e ficou parado por um ano. Reaberto pelos próprios moradores, sem o licenciamento, funcionou por mais dois anos, até quebrar completamente. Desestimulado por advogados, Oliveira não abriu processo contra o síndico ou a empresa que administrava o condomínio. No caso de acidente com morte em elevador de prédio sem manutenção, o síndico pode ser acusado por homicídio culposo (sem intenção).

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