Crescimento da violência nos bairro-cota preocupa Cubatão

O aumento explosivo da população dos bairros-cota de Cubatão, no Parque Estadual da Serra do Mar, na Baixada Santista (SP), e a qualidade de vida precária de seus moradores transformou os locais em focos de criminalidade nos últimos anos. Tanto que agora o maior temor de seus habitantes é que áreas como o Cota 200 e o bairro Água Fria virem uma espécie de miniatura do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, sob domínio do tráfico.No Água Fria, por exemplo, morava José Edson da Silva, acusado pelos comparsas de ordenar ao menor L.S.N. que matasse o prefeito de Santo André Celso Daniel, em janeiro. Já no Cota 200, os moradores não se identificam, com medo de represálias dos criminosos. Mas não deixam de fazer advertências aos "forasteiros" que andam pelo local. "Não é seguro subir até o Jardim Europa", dizem. Eles se referem à área mais alta do bairro, onde os traficantes dão as ordens. "É bom sempre ir acompanhado", afirmou um morador dias atrás.Comício canceladoOs avisos não são à toa. Há duas semanas, homens armados impuseram o cancelamento do comício que uma candidata a deputado estadual faria no bairro. Os organizadores do evento ficaram sob a mira de revólveres. Também não é raro os bandidos do Jardim Europa atacarem caminhões de entrega. Vários veículos com gás e móveis já foram roubados.E, como nas favelas cariocas, as ruas estreitas e irregulares dos bairros-cota dificultam o acesso de carros de polícia e de ambulâncias. Segundo relatório recente da Ouvidoria da Polícia, a Baixada Santista é um dos locais mais violentos do Estado de São Paulo, principalmente em relação ao tráfico de drogas.Lampião e CoriscoE a violência não é o único problema que afeta os moradores. Depois de passar dez anos de sua vida combatendo os cangaceiros Lampião e Corisco na Bahia, o ex-policial militar Oresto Barbosa de Souza, o Marancó, de 84 anos, enfrenta agora as dificuldades de morar no Cota 400. No local, cerca de 2.500 pessoas sobrevivem sem esgoto e com poucas alternativas de transporte coletivo.O abastecimento de água dos bairros Cota 200 e 400 é garantido por canos pretos, alguns furados, ligados diretamente a fontes e cachoeiras dentro da mata. Eles correm ao lado do esgoto, e as águas se misturam em alguns pontos das vielas do bairro. Casas de alvenaria, como a de Marancó, convivem com barracos levantados há pouco tempo, aos quais só é possível chegar por escadarias rústicas feitas na terra, em meio a sacos de lixo."Passo um frio danado nesta serra gelada, mas gosto do Cota 400, apesar da dificuldade de ir à cidade", afirma Marancó que lutou em 1940, na batalha em que foi morto Cristino Gomes da Silva Cleto, o Corisco. Três anos depois estava em São Paulo trabalhando como funcionário do Departamento Estadual de Estradas de Rodagem (DER), na construção da Via Anchieta. Ficou morando por lá.SuperpopulaçãoMorador do 200, onde vivem perto de 6 mil pessoas, Bartolomeu de Jesus Costa aponta a falta de rede de esgotos e de posto de saúde, além da inexistência de quadra poliesportiva e laboratório na Escola Estadual Professora Maria Helena como os principais problemas do bairro. "Na verdade, somos carentes de tudo."Os bairros-cota 200, 400 e 500, chamados assim por causa de sua altura em relação ao nível do mar, e o bairro da Água Fria ficam dentro do Parque Estadual da Serra do Mar, reserva de mata atlântica no Estado. Atualmente, abrigam cerca de 25 mil pessoas, empurradas para os bairros-cota após a crise do pólo petroquímico e do Porto de Santos, dois dos maiores empregadores da região.Só para se ter uma idéia do boom na área, o Cota 400, que em 1976 tinha 45 barracos, hoje possui 204 moradias. Nelas vivem muitos estivadores e petroleiros desempregados. A falta de trabalho é um problema geral na cidade. São 14 mil desempregados. Seis mil deles só dependem da caridade para viver.

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