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Aumento de pessoas que vivem sozinhas está ligado à longevidade da população, diz especialista

O demógrafo José Eustáquio Diniz Alves analisa o tema a partir da divulgação feita pelo IBGE nesta sexta-feira. Brasil está envelhecendo muito rápido, destaca

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2022 | 05h00

RIO - No Brasil, o principal fator por trás do fenômeno do crescimento dos lares com apenas uma pessoa morando sozinha é o envelhecimento da população, com aumento da proporção de idosos no total da população, diz o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, professor aposentado da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

Embora os demais fatores econômicos, sociais e culturais que impulsionam esse comportamento também estejam presentes no Brasil, o envelhecimento se destaca porque tem sido um movimento demográfico “muito rápido”, especialmente na comparação com países desenvolvidos da Europa, segundo Alves. 

Como o processo de envelhecimento se manterá, a tendência é que os domicílios com apenas um morador sigam ganhando espaço entre os demais arranjos domiciliares.

O Brasil já passou pela urbanização, as mulheres vêm ganhando mais espaço no mercado de trabalho e em termos de igualdade de direitos, mas, em livro publicado este ano, o sr. destaca o envelhecimento como explicação para o aumento dos domicílios com apenas um morador. O envelhecimento é o principal fator?

Tem uma distribuição por idade nos domicílios unipessoais que é interessante. De 20 anos até 60 anos (de idade), os homens predominam. São homens que vão trabalhar fora ou se separam e vão morar sozinhos. Isso é muito comum entre os homens na idade adulta até antes do envelhecimento. Havia muito poucas mulheres, nessas idades, morando sozinhas. Isso mudou, nas últimas décadas, por causa do empoderamento das mulheres. Mesmo assim, o grande predomínio é de mulheres mais velhas. São mulheres cujos filhos saíram de casa e, depois, o marido morreu. As mulheres vivem sete ou oito anos (em média) a mais do que os homens, e elas ficam morando sozinhas. Nesses casos, não é tanto empoderamento, é uma questão demográfica. Está aumentando a longevidade e existe uma diferença muito grande na longevidade entre homens e mulheres. O que mais cresce são exatamente as mulheres idosas morando sozinhas.

A crise econômica pode dificultar o crescimento do número de pessoas morando sozinhas?

Como a economia é muito grande, tem jovens indo morar com os pais, irmãos que vão morar juntos, mas o que vai continuar, o arranjo domiciliar que mais crescerá será o unipessoal, por causa desse fenômeno (do envelhecimento). O Brasil está envelhecendo muito rápido. Por exemplo, a França, para passar de 7% da população idosa para 28%, vai gastar 200 anos. O Brasil vai gastar só 50 anos. O Brasil, a China e outros países tiveram uma transição muito rápida.

Os países emergentes estão envelhecendo mais rapidamente do que os países desenvolvidos?

Sim, principalmente mais do que os europeus, que fizeram esse movimento num período maior. O Brasil é muito rápido. E como tem essa diferença muito grande entre (a longevidade de) homens e mulheres, esse envelhecimento, e o predomínio das mulheres idosas, faz aumentar muito o número de pessoas morando sozinhas.

Qual o principal motivo para explicar a maior longevidade das mulheres no Brasil?

O fator importante são as mortes violentas, que chamamos de mortes por causas externas. Entre os homicídios, a grande maioria, de 85% a 90%, são de homens, homens jovens, principalmente. E acidentes de trânsito também. A maior parte dos acidentes de trânsito são com homens. Isso mata homens jovens e afeta muito a expectativa de vida diferencial. Além disso, os homens têm uma cultura de risco, de não se cuidar, e as mulheres têm toda uma cultura de cuidado, de ir ao médico, não correr tanto risco na vida. Isso também acaba influenciando.

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