MÁRCIO FERNANDES/ESTADÃO
MÁRCIO FERNANDES/ESTADÃO

Criança de 5 anos é a quarta morte confirmada em Mariana

Menina, moradora do distrito de Bento Rodrigues, havia se soltado da mão do pai no momento do rompimento das barragens

Bruno Ribeiro, O Estado de S. Paulo

10 Novembro 2015 | 12h44

Atualizado às 16h17

MARIANA (MG) - Foi enterrado no início da tarde desta terça-feira, 10, o corpo da menina Emanuele Vitória Fernandes, de 5 anos. A criança, que morava no distrito de Bento Rodrigues, é a quarta vítima da tragédia de Mariana, em Minas Gerais, segundo a Polícia Civil.  A menina havia se soltado da mão do pai quando a família tentava escapar do mar de lama. Ainda há um corpo aguardando identificação.

O corpo de Emanuele foi velado no Cemitério de Mariana sob forte comoção. O pequeno caixão branco da menina estava lacrado com fitas adesivas transparentes. Cerca de 50 pessoas acompanharam o velório, realizado no Cemitério de Mariana, o maior da pequena cidade. 

A mãe de Emanuele, Pâmela Raiane, que está grávida, ficou o tempo todo ao lado do corpo, sentada em uma cadeira de madeira com marcas de tinha branca. No peito dela, havia um adesivo, desgastado, escrito "Bento". O adereço é uma forma de controle de acesso que os hotéis da região têm feito para controlar a entrada dos desabrigados de Bento Rodrigues hospedados na cidade. 

O corpo foi levado de um cemitério para outro após uma celebração evangélica marcada por comoção. O pastor leu três versículos do capítulo 12 do livro Apocalipse, da Bíblia, e disse à mãe que ela um dia reencontrará a filha no céu. A jovem mãe, que espera mais um filho, não conteve os prantos e foi ajudada por parentes. 

O avô de Emanuele, o vigia Francisco Izabel, de 65 anos, foi quem reconheceu a criança. "Reconheci pelos dedinhos da mão, que eram tortinhos, e pelos dentes", diz o avô.

"O pai estava tentando resgatar ela e o menininho (irmão de Emanuele), mas ela escapuliu. Assim mesmo tentamos entrar na lama, mas não a alcançamos, ela sumiu, depois apareceu mais uma vez e depois afundou de novo. Ainda consegui ouvir dois gritos dela", lembra o avô. "Falaram depois que o helicóptero iria buscá-la e que tinha resgate. Ela estava a 30 metros da gente, não consegui alcançar."

Chorando, o avô não escondeu a revolta por causa do acidente. "Era uma menina sadia, doce, alegre, uma boneca. A gente vê essa coisa, que é uma irresponsabilidade do Meio Ambiente, um órgão que tinha como cuidar das coisas, como olhar isso, e da Samarco, que com ganância pelo dinheiro fez o que fez. Tem horas que vejo o grito dela, é muito difícil, completou o vigilante. 

O pai de Emanuele, que se feriu tentando salvar a menina da lama, não acompanhou a cerimônia. Ele continua internado no hospital João XXXIII, em Belo Horizonte. Segundo familiares, passava por cirurgia na hora do enterro. 

Funcionários da empresa Samarco, responsável pelas barragens que romperam e destruíram o vilarejo de Bento Rodrigues, estiveram na cerimônia. Pâmela foi de um cemitério a outro no carro da empresa. 

Desaparecidos. A lista de desaparecidos agora é de 22 pessoas. Além do corpo de Emanuele, uma das pessoas incluídas na lista, Maria Aparecida Vieira, de 65 anos, escapou da tragédia e estava na casa de parentes desde quinta-feira, 5. Seu nome foi excluído. Assim, resta localizar 22 pessoas.

As buscas em Bento Rodrigues foram suspensas nesta manhã após o registro de um abalo sísmico na região de 2,1 graus na escala Richter, registrado pelo Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo (USP), segundo o governo do Estado de Minas. Como mais pessoas vêm sendo retiradas de áreas isoladas pela lama, o total de desabrigados, hoje, é de 631 pessoas. 

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