Criança morre baleada na Maré e moradores fecham avenidas

Vizinhos e familiares acusam policiais de terem disparado; ele foi baleado na cabeça quando ia comprar pão

Clarissa Thomé, de O Estado de S. Paulo,

04 de dezembro de 2008 | 12h38

O menino Matheus Rodrigues Carvalho, de 8 anos, foi morto nesta quinta-feira, 4, com um tiro de fuzil na cabeça, quando saía de casa, na Baixa do Sapateiro, uma das favelas do Complexo da Maré. Os moradores dizem que não houve trocas de tiro no local e acusam policiais militares de terem feito o disparo. Eles impediram que os PMs levassem o corpo da criança, exigiram a perícia e fizeram manifestações nas vias expressas Linha Vermelha e Linha Amarela, em repúdio à morte da criança. Um carro foi incendiado. A cinco quilômetros da casa de Matheus, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresentou o projeto Territórios de Paz, no Complexo do Alemão, prometendo uma polícia menos violenta. O menino saía de casa para comprar pão às 7h30. Ele morava com a mãe e sete irmãos num beco, numa casa que serviu de sede para uma igreja evangélica, e estava sobre o degrau da entrada, 50 centímetros acima do nível da rua. Quando colocou o corpo para fora, foi alvejado. A bala entrou pela nuca, saiu pelo rosto, desfigurando-o, e atingiu a casa de um vizinho. Matheus caiu sentado, com o corpo para dentro de casa. "Meu sobrinho morreu com a moeda de um real na mão. Não era bandido. Ele estava mais alto e o PM achou que era um bandido se escondendo", disse a tia do menino, Nelma Rodrigues da Silva. A mãe de Matheus, Graciele Rodrigues de Carvalho, pensou ter ouvido um barulho de bomba. "Fui ver o que era e encontrei meu filho daquele jeito. Cheguei até a rua e ainda vi o policial correndo", contou. Momentos depois, PMs tentaram remover o corpo da criança. A família e vizinhos impediram. Chamaram o deputado Alessandro Molon (PT), presidente da comissão de Direitos Humanos, e a socialite Yvonne Bezerra de Melo, que dirige projeto educativo para crianças da Maré. Eles acompanharam o trabalho da perícia. O comandante do 22º BPM (Maré), tenente-coronel Rogério Seixas Cruz, também foi ao local do crime, mas foi rechaçado pelos moradores, aos gritos de "assassino". O comandante das Unidades Especiais, Álvaro Garcia, garantiu que os PMs não fizeram disparos na favela. "Foi uma troca de tiros de marginais de facções rivais. Os policiais estavam saindo do 22.º Batalhão e foram verificar o tiroteio. Houve dispersão dos vagabundos. Os policiais arrecadaram uma mochila, com armas, drogas e rádios de transmissão. Ao chegarem à delegacia para apresentar o material apreendido, souberam que um garoto havia sido baleado", disse Garcia, que já comandou o 22.º BPM. A perícia que esteve no local só encontrou o projétil que matou Matheus. Não havia outras cápsulas. Os policiais - dois sargentos, um cabo e um soldado - entregaram na delegacia as armas que usavam: quatro fuzis e quatro pistolas. O delegado Carlos Eduardo Almeida disse que o número do carro usado por essa equipe difere daquele que foi anotado por moradores da Baixa do Sapateiro. "Vou fazer levantamento nos batalhões da região para tentar localizar a viatura", afirmou o delegado.  Ele não permitiu imagens das armas dos policiais nem da mochila que eles, supostamente, teriam apreendido na favela. "Tenho duas versões, de dois lados diferentes, que tradicionalmente contam a mesma história nesse tipo de episódio. Vou esperar o laudo da perícia e a localização da viatura", afirmou Almeida.A morte de Matheus revoltou os moradores. Inicialmente, eles interditaram uma pista da Linha Vermelha. Depois, incendiaram o carro de uma empresa de ônibus na Linha Amarela. Para dispersar o grupo, policiais militares fizeram disparos para o alto e lançaram bombas de efeito moral.  Por volta das 13 horas, outro grupo de moradores tentou interromper o tráfego na Avenida Brasil. Eles chegaram a posicionar um caminhão de lixo junto à pista. O veículo tinha os bancos embebidos em álcool. A polícia impediu o protesto. Moradores chegaram a lançar bombas de fabricação caseira contra os policiais. O Batalhão de Choque foi chamado e reforçou o policiamento. Texto ampliado às 19h50 para acréscimo de informações.

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