Crianças de Catanduva sofrem com a discriminação

Depois de molestadas por pedófilos, crianças do Jardim Alpino e Cidade Jardim, de Catanduva, a 380 quilômetros de São Paulo, se tornaram vítimas mais uma vez. Agora enfrentam a discriminação em forma de curiosidade dos adultos e brincadeiras de mau gosto de outras crianças. Estigmatizadas, elas fogem das aulas e se recusam a sair de casa. Na quinta-feira, um menino de 14 anos chutou um repórter de TV que quis entrevistá-lo.Horas antes, ele agredira cinco colegas de escola. "Eles me olharam e disseram: ?olha lá o estuprado; olha lá o mulherzinha do Zé do Pipa?", contou. Zé é o borracheiro José Barra Nova de Melo, de 46 anos, preso acusado de abusar de 14 crianças. No mesmo dia, outro menino, de 12 anos, teve de tomar calmante. Mesmo assim, ele continuou em crise de choro e de agressividade. "Parece que há uma faca dentro da gente. Nunca imaginei que pudesse ver meus filhos sofrendo tanto", conta C. S., que teve o filho de 12 anos e duas filhas, de 8 e 10, abusados. As crianças não irão à escola, por enquanto. Psicólogos acompanham o caso.A direção da Escola Nelson de Macedo Musa decidiu que as crianças discriminadas devem fazer denúncias. Poucas o fazem. A prefeitura de Catanduva informou que vai reforçar a cultura da paz e técnicos da Educação vão monitorar os casos. "Acho que deveriam reunir todos os pais para pedir aos filhos que não façam esse tipo de coisa", diz E.R.. Ela conta que o problema não fica só na escola. "A vizinhança me pergunta qual dos meus filhos foi abusado e ficam olhando estranhamente para as crianças." SILÊNCIOPara fugir da estigmatização, algumas mães optaram por se calar. Para a doméstica M.A., as hostilidades mostraram que ela acertou ao não denunciar a agressão contra a sua filha. "Eu tinha pensado em ir à polícia, mas, se eu tivesse feito a denúncia, como fizeram as outras mães, minha filha estaria enfrentando esse problema." Para Geraldo Corrêa, do Instituto Pró-Cidadania de Catanduva, ONG que ajudou as mães, essa atitude "só serve para esconder o problema".Outras mães, porém, procuraram o Ministério Público e a Justiça para fazer novas denúncias. Relatos de outras crianças elevaram para 40 o número de menores que teriam sido abusados. Até quarta-feira, eram 26. A mãe E.C. descobriu na sexta-feira que suas duas filhas foram abusadas. "Elas têm 4 e 7 anos. A menina de 7 me contou que foi obrigada a cheirar cocaína e, numa das vezes, passou mal e aplicaram uma injeção", contou.

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