Crianças enfrentam difícil rotina de abrigos

Longe de casa, da escola e dos amigos, elas contabilizam perdas

Ângela Bastos, Agência RBS, Ilhota, O Estadao de S.Paulo

08 de dezembro de 2008 | 00h00

"Eu comprei um boné para o Marques Sabel, meu amigo-secreto. A festa ?ia ser? dia 28. Ele morreu soterrado."Jonas Espig, de 14 anos, quem conta. O menino está em um abrigo, em Ilhota, Vale do Itajaí, junto com os avós, pais e irmãos. Sua família mora no Alto Braço do Baú e deixou o lugar por causa dos riscos de deslizamentos de terra. A área do Morro do Baú, a 20 quilômetros do centro de Ilhota, é o lugar onde mais choveu nas cheias. Até quinta-feira, eram 37 os mortos identificados no município. Colega de aula, Marques Sabel, de 13 anos, é um deles.As brincadeiras de Jonas com os irmãos Franklin, de 12 anos, e Benjamin, sete meses, aliviam o sentimento da perda. Um dos lugares preferidos é o palco onde está armada a árvore de Natal. Também aconchega a presença da mãe, Elizabeth, de 38 anos, e da vó Ethla, de 60. O pai e o irmão de 18 anos estão engajados no trabalho de ajuda às vítimas.Benjamin sorri com as brincadeiras dos irmãos. O bebê dormia quando a equipe de resgate chegou no chão dos Espig. Como uma lava de vulcão, a terra deslizava do alto dos morros. Benjamin foi retirado do berço nos braços de um bombeiro. Se os Espig sofrem e brincam unidos, outras crianças reagem de forma diferente.ROTINA ALTERADAPerto do abrigo ao lado da prefeitura foi montado um heliponto. O ruído dos motores dos helicópteros desperta a atenção das crianças. Algumas correm para pertinho do local de pouso e decolagem. Buscam um bom lugar para ver a movimentação. Outras permanecem dentro do abrigo. Aproximam-se dos pais, fecham-se nos quartos. Até então, por lá não apareciam aviões. Para as crianças, a chegada do barulho ensurdecedor dos motores foi um golpe: elas foram arrancadas do lugar onde sempre viveram. Para trás ficou o espaço onde podiam correr, subir nas árvores, brincar com os animais de estimação. Deslizamentos soterraram espaços importantes, como a casa onde tinham seus quartos, o colégio em que estudavam, a igreja na qual se preparavam para a primeira comunhão. Desapareceram os campinhos de futebol e as casinhas de bonecas. As crianças têm uma relação de intimidade com a casa. Os móveis, os objetos, os brinquedos são referências. Às vezes, para o resto da vida.Jonas Espig ainda não sabe como estão suas coisas. Ouviu que, passado o risco, poderão voltar. Casas, escola e igrejinha vão ser reconstruídas, mesmo que em um lugar mais seguro. Mas, como a vida não é uma brincadeira de faz-de-conta, o amigo Marques não voltará.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.