Crianças já passaram metade da vida na rua

Maioria com até 5 anos vive há 2 em risco, diz pesquisa

Camilla Rigi, O Estadao de S.Paulo

07 Setembro 2013 | 00h00

Das crianças com menos de 5 anos que vivem ou trabalham nas ruas da Subprefeitura da Sé, no centro, e de Pinheiros, na zona oeste, mais da metade está há mais de dois anos nessa situação. O dado, divulgado ontem, foi revelado pela pesquisa qualitativa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), encomendada pela Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (Smads), no início do ano. Como o Estado adiantou na edição de segunda-feira, a pesquisa quantitativa mostrou que, durante quatro horas (das 16 às 20 horas) do dia 18 de junho, os recenseadores contaram 1.842 crianças e adolescentes em situação de rua em São Paulo, sendo que 1.196 estavam no centro expandido. Partindo desse dado, a coordenadora da pesquisa, Silvia Schor, realizou um trabalho qualitativo com 805 pessoas da região central e de Pinheiros. "O objetivo era responder quem são essas crianças, depois de já ter descoberto quantas eram e onde estavam", explicou a pesquisadora. Além de constatar que em média as crianças e adolescentes dessas regiões vivem três anos e meio em situação de rua, a pesquisa mostrou que 49,6% dos 805 entrevistados declararam que retornam toda noite para suas casas, enquanto 15,4% não voltam. O restante visita a família pelo menos uma vez por semana, ou em intervalos maiores. Um resultado que surpreendeu Silvia foi a quantidade de crianças com menos de 6 anos encontradas nas ruas: 15,7% nas duas regiões escolhidas para as entrevistas, o equivalente a 126 garotos. "Isso me chocou muito. A responsabilidade de uma criança estar na rua não é dela mesma. Alguma coisa errada há na família", afirmou a pesquisadora. Os motivos para estarem nas ruas não foi abordado durante a pesquisa. LAÇOS FAMILIARES Por isso, o secretário de Assistência e Desenvolvimento Social, Floriano Pesaro, enfatizou que o trabalho da Prefeitura tem que dar prioridade aos mais novos. "Quanto mais eles vão se afastando de suas casas e ficando mais tempo na rua, é mais difícil retomar os laços familiares", afirmou. Um dado à parte, repassado pelo secretário, é que 70% das crianças que possuem cadastros nos Centros de Referencias da secretaria, os Crecas, sofreram abusos sexuais. "Que criança quer voltar para uma casa dessa? Por isso o trabalho tem que ser com a família toda", afirmou Pesaro. Até o fim do ano a secretaria deve começar a treinar mais 100 pessoas especialmente para fazer abordagens de crianças. O dinheiro para isso deve vir do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o qual já financiou parte da pesquisa da Fipe, dentro do programa de revitalização do centro. ESCOLARIDADE A pesquisa mostrou também que 54,5% das crianças e adolescentes da Sé e de Pinheiros não vão à escola e que o grau de escolaridade cai quando aumenta a idade do entrevistado. Quanto à freqüência com que vão para as ruas, a grande maioria (82,6%) declarou que vai pelo menos cinco dias por semana, sendo que 66,9% dos 805 disseram que também ficam à noite. Silvia que já fez pesquisa parecida com moradores de rua adultos, confessou que teve mais dificuldade com as crianças. "Trabalhar com crianças e adolescentes é mais complicado, mas delicado", afirmou. NÚMEROS 1.842 crianças foram contadas pelos recenseadores nas ruas, das 16 às 20 horas de 18 de julho. Dessas, 805 foram alvo de um trabalho qualitativo, na região central e em Pinheiros (zona oeste) 1.196 dos pesquisados estavam no centro expandido da capital paulista 70% das crianças que têm cadastros nos Centros de Referência da Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social (Crecas) já sofreram abusos sexuais

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