Crianças molestadas estão em abrigo; 20 terão ajuda psicológica

Polícia apreende 5 mil CDs numa lan house de Catanduva onde os menores acessariam imagens de colegas nus

Chico Siqueira, CATANDUVA, O Estadao de S.Paulo

20 Fevereiro 2009 | 00h00

Vinte e três crianças que tiveram contato com integrantes de uma rede de pedofilia de Catanduva, no interior de São Paulo, serão enviadas nos próximos dias para tratamento com psicólogos e assistentes sociais, assim como seus pais e responsáveis, todos moradores nos bairros Cidade Jardim e Jardim Alpino. A informação foi dada ontem pela juíza Sueli Juarez Alonso, da Vara da Infância e da Juventude. "A estimativa é de que pelo menos 47 crianças tenham sido abusadas."Essa quadrilha de pedófilos, além de filmar, fotografar e molestar as crianças, teria obrigado as vítimas a usar drogas - há relatos de um menino de 7 anos que cheirou cocaína antes de ser submetido a sessões de abuso. As imagens serviriam para alimentar uma rede de pornografia infantil - ontem a Polícia Civil fez diligências numa lan house onde as próprias crianças acessariam as imagens de colegas nuas e apreendeu 15 máquinas e 5 mil CDs, além de capas com imagens de pedofilia."A medida (enviar as 23 crianças para tratamento) visa a reduzir os impactos psicológicos sofridos pelas crianças e seus familiares, que estão passando por momentos de terror. Pais não reconhecem mais os filhos e as crianças já estão sendo estigmatizadas", declarou a juíza, a mesma que atuou no caso de Porto Ferreira, onde seis vereadores foram presos por pedofilia. Entre as crianças estão três de uma mesma família - duas meninas, de 6 e 8 anos, e um menino, de 10 -, que foram molestadas pelos pedófilos e estão sendo mantidas em esconderijo juntamente com os pais. "Fomos ameaçados e ainda ontem (quarta-feira) um homem parou e ameaçou meu filho na frente de câmeras de TV, que estavam no bairro", contou J. S., pai das crianças. "Isso acontece porque eles (pedófilos) têm certeza da impunidade", afirmou. As 23 que receberam guarda da Justiça foram relacionadas em um primeiro inquérito policial que constatou que pelo menos 10 teriam sido molestadas de alguma forma pelo borracheiro José Barra Nova Melo, de 49 anos, preso em 15 de janeiro, e por seu sobrinho, William Melo Souza, de 19, que foi colocado em liberdade na sexta-feira por habeas corpus. Os dois são processados por atentado violento ao pudor e divulgação de imagens pornográficas de crianças. Mas a rede de pedofilia incluiria outras pessoas.Por isso, um segundo inquérito, aberto na terça-feira por determinação da Justiça, apura a participação de personalidades locais - incluindo um empresário, o filho de um médico e um comerciante. O segundo inquérito foi aberto porque no primeiro a polícia teria omitido a participação dessas pessoas, apesar das denúncias de pais e crianças. O caso será apurado pela Corregedoria da Polícia Civil. Nos dois bairros não é difícil encontrar mães cujos filhos mantiveram contato com os pedófilos suspeitos. "Minha filha de 6 anos mudou totalmente o comportamento e a outra menina (de 8) está ansiosa. Já o menino diz que não teve qualquer relação com esses pedófilos, mas não sei se isso é verdade, porque ele evita sempre o assunto", contou C. R. P., uma das mães que procuraram a polícia. Isso ocorreu depois que o menino apareceu em casa com fotos feitas pelo borracheiro."Trata-se de uma situação devastadora para a cabeça dessas pessoas. Uma avó contou que o neto passava várias horas jogando videogame na casa do borracheiro. O menino está muito mal de saúde, assim como há crianças com doenças venéreas", contou Geraldo Corrêa, líder comunitário que mantém a ONG Instituto Pró-Cidadania, na Vila Alpino, e liderou o movimento para denunciar a rede de pedofilia.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.