Crianças nas ruas de SP são 1.842 e a maioria está a trabalho, diz Fipe

Censo encomendado pela Prefeitura mostra que maior parte vende produtos e faz atividades como malabarismo

Camilla Rigi, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2010 | 00h00

Em São Paulo, 1.842 crianças e adolescentes trabalham ou vivem nas ruas. Esse é o resultado da pesquisa realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), encomendada pela Prefeitura. O número fica bem abaixo da última estimativa da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (Smads), de 2005, que era de 4.030 crianças e adolescentes nessa situação. A pesquisa mostra que a maior parte deles - 1.040 - está na rua para conseguir algum dinheiro. Os outros 802 não estavam trabalhando quando abordados pelos pesquisadores.Esta é a primeira vez que a Prefeitura contrata uma fundação para fazer um censo das crianças com metodologia acadêmica. "O que tínhamos antes era uma contagem feita por supervisores e o monitoramento de 180 principais cruzamentos da cidade", explicou o secretário de Assistência e Desenvolvimento Social, Floriano Pesaro.A metodologia da Fipe faz um retrato da situação. No dia 18 de junho de 2007, às 16 horas, dezenas de pesquisadores saíram pelas regiões da cidade buscando crianças e adolescentes em situação de rua. Para a escolha do dia, segundo o secretário, houve preocupação com o clima (não poderia estar muito frio) e com o horário (teria de ser o de pico de crianças nas ruas, das 16 às 20 horas).A coordenadora da pesquisa, Sivila Schor, ressalta que o resultado reflete o número de crianças e adolescentes que estavam nas ruas naquele momento e afirma que, pelo métodos adotados anteriormente pela secretaria serem diferentes dos usados na pesquisa, os resultados dos dois levantamentos não são comparáveis.A pesquisa contou pessoas em situação de rua com até 18 anos, circulando sozinhos ou acompanhados de familiares. "Foi feito tudo no mesmo dia para não ter o problema de contar a mesma criança duas vezes", explica o secretário.Apenas em quatro das 31 subprefeituras nenhuma criança foi encontrada na rua: Cidade Ademar, Perus e Parelheiros, na zona sul, e Cidade Tiradentes, na leste. A maior concentração está no centro: 42% (774). Além do centro, a zona sul é a segunda com maior número de crianças nas ruas. Em Santo Amaro, por exemplo, estão 6,1% das crianças e adolescentes. Em terceiro lugar, está a leste, com maior concentração no Itaim Paulista (2,5%).TRABALHOAs 1.040 crianças e adolescentes que apenas trabalham nas ruas têm como principal fonte de renda a venda de produtos, como balas, chocolates e chicletes - são 55,9% nesse caso. Outras 21,6% prestam algum tipo de serviço, de lavar pára-brisas e engraxar sapatos a malabarismo nos semáforos; 15,6% pedem esmolas. É justamente nesta categoria que algumas características são determinantes para se ter sucesso. Os pesquisadores da Fipe constataram que, conforme as crianças crescem, a capacidade de sensibilizar as pessoas é menor. Assim, 70% dos que pedem esmola têm menos de 12 anos de idade. "É disso que as pessoas precisam se conscientizar: não pode dar esmola ou comprar produtos porque elas estão contribuindo para que essa situação se perpetue. Cria-se uma cultura de que realmente não precisa estudar ou trabalhar porque ali, no cruzamento, ela se sustenta", diz o secretário. "Quem paga o preço somos todos nós." A estimativa da secretaria,baseada na quantidade de carros que param nos principais cruzamentos, é que o trabalho nas ruas e a esmola movimentam cerca de R$ 25 milhões por ano em São Paulo. "No nosso levantamento, de cada dez carros que param, quatro dão esmola ou compram algum produto. Na base de R$ 1 cada um."ESTIGMAAo contrário da imagem de que toda criança de rua se droga, no momento da pesquisa, das 1.842 pessoas abordadas, apenas 5,9% estavam usando algum tipo de droga. "A minha suspeita é as crianças que foram encontradas perambulando, paradas ou dormindo sem companhias de adultos também se drogam", pondera Pesaro. Com isso, a porcentagem de usuários de drogas subiria para 30,3%.

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