Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Crianças são pressionadas por pais e escolas, segundo Rosely Sayão

Psicóloga explica que as cobranças não permitem que os mais novos aproveitem o presente

Felipe Siqueira, Especial para O Estado, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2019 | 06h00

As crianças e os adolescentes estão entre as principais vítimas da ansiedade. De acordo com a psicóloga Rosely Sayão, eles passam por pressões tanto dos pais quanto das escolas e são impedidos de viver de forma saudável as etapas de desenvolvimento necessárias. Tudo é à base do futuro, ou seja, saber em qual faculdade estudar, qual curso escolher, ter um bom desempenho no vestibular. 

 Para ela, esse excesso de exigências é bastante prejudicial porque, sem viver e focar o presente, a criança fica ansiosa e, consequentemente, começa a ter doenças que antes faziam parte apenas das vidas dos adultos. “O futuro é consequência de como você vive o agora”, explica a psicóloga. 

Rosely conta que não é dado ao jovem no ambiente escolar o direito de aprender, errar, tentar, experimentar. É cobrado por resultados o tempo todo. E esse peso, em vez de ser amenizado, é intensificado em casa. Os pais se avaliam de acordo com as conquistas e ações dos filhos e as escolas medem o próprio desempenho a partir dos resultados alcançados pelos seus alunos. Isso, segundo ela, faz com que professores e instituições de ensino cobrem mais do que ofereçam. 

Além das pressões sofridas em casa e nas salas de aula, meninos e meninas têm outro problema, proveniente do mundo moderno. O excesso de tecnologias à disposição. 

“Imagina o que significa ter todas as informações a respeito de todas as mazelas da vida humana. Crianças ficam sabendo do assassinato de outras crianças, do suicídio de colegas”, diz. “Há um constante estímulo à ansiedade”, completa. 

Além do exagero de informações não indicadas à idade, Rosely explica que as pessoas se dedicam muito ao mundo virtual. “As crianças estão no mesmo pátio do colégio e conversando entre si por meio de mensagem instantânea (não pessoalmente). Isso vai trazendo uma alienação de si”, fala. 

Exposição e juventude

Rosely Sayão afirma que vivemos atualmente em uma “sociedade do espetáculo” e que isso afeta drasticamente crianças e adolescentes. 

“Os jovens são estimulados desde cedo a aparecerem, serem youtubers”, comenta. “Aí quando vem uma crítica (por conta de um vídeo postado, por exemplo), a criança não sabe como lidar, o que é natural”, diz. 

Para a psicóloga, existe também um culto exagerado à juventude na sociedade. Segundo ela, faltam pessoas experientes em torno das crianças porque hoje ninguém quer ser adulto, de pais a avós. “Todos buscam parecer jovens o tempo todo, parece uma ofensa ser velho”, afirma a psicóloga. “Quando vejo um pai batendo em um filho estou vendo uma briga de meninos”, exemplifica.

“O adulto diz para a criança: não suba aí, e fica no mesmo lugar em que estava. Ela é pequena, não tem a autorregulação e autocontrole, tem impulsividade, curiosidade. Claro que vai subir onde não deve. E o adulto diz logo depois, dando uma bronca: ‘Mas eu não falei para você não subir ai?’ Isso é uma atitude absolutamente juvenil”, analisa Rosely. 

Ela defende a valorização dos idosos e da capacidade que eles têm de passar parte dos conhecimentos que acumularam. “Meu cabelo branco é um ato político”, declara Rosely. 

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