Crianças vítimas de fluorose querem arrancar dentes

A demora para iniciar o tratamento determinado pela Justiça está levando as crianças afetadas pela fluorose a tentarem arrancar os dentes deformados pela anomalia em Pilar do Sul, na região de Sorocaba. Elas tiveram a dentição atacada pelo excesso de flúor natural na água distribuída na rede pública dos bairros Jardim Cananéia, Pinhal e Chácaras Reunidas, na zona rural do município. A água continha teor até 8 vezes acima do recomendado pelaOrganização Mundial de Saíde (OMS). Os incisivos, caninos, pré-molares e molares perderam o esmalte e foram corroídos,passando a apresentar placas escuras como borras de chocolate. O problema afeta de forma mais grave 45 alunos da Escola Municipal de Educação Infantil e Ensino Fundamental Masajiro Ogawa, do bairro Pinhal. Segundo a diretora Miriam César Rodrigues, três alunos procuraram a dentista que atende a escola para pedir que seus dentes fossem arrancados. "Eles se queixavam de dor e disseram ter vergonha dos dentes." A fluorose atingiu também outros moradores dos bairros, surgidos a partir de loteamentos instalados há 16 anos. Os loteadores perfuraram poços semi-artesianos para abastecer as residências, mas a composição da água não foi analisada. O abastecimento foi transferido à prefeitura, mas o problema continuou. Há três anos, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) encampou o serviço."As mães viam os dentes das crianças escurecendo e achavam que era falta de escovar", conta a diretora. Quando assumiu aescola, em 2001, ela achou que não era normal a grande quantidade de crianças com dentes escuros e deteriorados. "Oproblema da água com excesso de flúor já era conhecido, mas ninguém tinha feito nada", disse Míriam. Análises mostraram aágua saída do subsolo com até 6,8 miligramas de flúor por litro, quando o máximo recomendado é de 0,8 mg. Esse é o valor adicionado à água que não contém flúor nenhum para prevenir cáries. "Em excesso, o flúor causa sérios danos aos dentes e aoorganismo", atestou o médico Arturantonio Chagas Monteiro, que examinou as crianças. Em dezembro de 2003, o juiz de Pilar do Sul, Alexandre Guerra, concedeu liminar em ação movida pelo Ministério Público obrigando a prefeitura local a assumir o tratamento dos dentes das crianças. O juiz determinou também à Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) que regularizasse as condições da água distribuída à população. A Sabesp informou que a sua parte já foi feita. Opromotor público Flávio Eduardo Turessi, autor da ação, quer que a empresa ajude a pagar os custos do tratamento. A prefeitura indicou uma dentista para acompanhar as crianças. Como o tratamento é especializado, ela está em busca de parcerias para realizar o treinamento. "Quanto mais o tempo passa, mais a situação dessas crianças se agrava, pois elas estão crescendo e os dentes estragados incomodam", reclama a diretora.

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