Crime organizado faz nova demonstração de força no Rio

Em nova demonstração de força, traficantes de drogas incendiaram nesta terça-feira mais três ônibus e três carros na zona norte da capital e na Baixada Fluminense, apedrejaram outros quatro coletivos e dispararam dezenas de tiros contra um supermercado, um shopping center e umposto de gasolina que não haviam acatado a ordem de fechar as portas na segunda-feira. Os ataques se concentraram na área do conjunto de favelas do Alemão, de onde seriam os bandidos que atiraram contra as lojas. Nos dois dias de violência, 29 coletivos foram queimados. Entre a madrugada de segunda-feira e a tarde de terça-feira, dois ônibus foram queimados na Pavuna, na zona norte, perto do complexo do Alemão, e outro no bairro NovaCampina, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Durante a madrugada, bandidos atearam fogo a três carros de passeio em bairros da zona norte. No Alemão, de manhã, dois microônibus foram apedrejados. Nos bairros de Benfica e Del Castilho, na zona norte, dois coletivos tambémforam depredados. Não houve feridos.Nesta segunda-feira à noite, os ataques também se concentraram na zona norte. Por volta das 20 horas, um ônibus foi incendiado em Guadalupe e, às 21h30, outro foi atacado, dessa vez na Avenida Brasil, na altura de Barros Filho. Já durante o dia de segunda-feira, os traficantes haviam queimado 24 coletivos e danificado oito em diferentes pontos da Região Metropolitana. O saldo de feridos da onda de violência da segunda-feira foi de oito pessoas. MedoNo Alemão, pelo segundo dia consecutivo, o comércio permaneceu fechado e os coletivos mudaram o itinerário para evitar novos ataques, deixando moradores a pé. Uma dona-de-casa de 73 anos, que mora perto do complexo, contou que os próprios policiais militares avisavam aos motoristas do perigo de passar perto das favelas. ?Está tudo fechado desde ontem porque os ?homens da lei? mandaram. Agora tenho que andar quilômetros para comprar um pão?, reclamou a senhora, com medo de se identificar. Na Avenida Brás de Pina, na Penha, também na zona norte, moradores e comerciantes se assustaram ao se deparar com a vidraça do supermercado Bon Marché todo perfurado por balas de fuzil. O Penha Shopping e um posto de gasolina que ficam do outro lado da rua também foram alvejados. A represália se deu porque, na segunda-feira, as lojas desrespeitaram as ordens dos traficantes e se ficaram abertas. Os autores dos disparos seriam traficantes da Vila Cruzeiro, uma das favelas do Alemão, que agiram por volta das 23h30 de anteontem. Comerciante contaram que haviam sido avisados de que poderia haver retaliação e chamaram a Polícia Militar, mas, segundo eles, ninguém apareceu.O secretário de Segurança, coronel Josias Quintal, informou que mandaria investigar o caso para verificar se houve omissão. Não houve feridos.ReforçoPor causa da onda de violência, a segurança dos paláciosGuanabara, sede do governo estadual ? que foi metralhado por traficantes no dia 16 de outubro do ano passado ?, e Laranjeiras, residência oficial da governadora Rosinha Matheus, foi reforçada pela Polícia Militar desde amadrugada. Mas Rosinha disse que não há necessidade de andar com mais segurança. Sobre os episódios dos últimos dois dias, a governadora declarou: ?Continuamos com a polícia nas ruas agindo; nós não podemos prever quando e qual ônibus eles irão atacar.? Estão presos desde segunda-feira 23 pessoas que teriam incendiado ou depredado ônibus ou ainda mandado fechar ocomércio. Sobre elas recaem acusações de associação para o tráfico de drogas, formação de quadrilha e dano ao patrimônio privado. O delegado Milton Olivier, da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Draco), que investiga o caso, disse que vai concentrar esforços contra os traficantes presos nocomplexo penitenciário de Bangu, que teriam orquestrado as ações dos últimos dois dias. Olivier quer pedir à Justiça a quebra do sigilo telefônico das pessoas que tiverem seus nomes nas memórias dos celulares que forem apreendidos nos presídios a partir de agora. Ele planeja ainda notificar a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) sobre a situação irregular dos advogados de traficantes, que serviriam de pombo-correio entre os bandidos.Sobre a denúncia de que a ordem para os atos dos últimos dois dias teria partido de Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, em represália ao seqüestro de um parente seu por policiais, a coordenadora da Coordenadoriade Inteligência da Polícia Civil (Cinpol), Marina Maggessi, disse que a possibilidade é remota. Ela afirmou que Beira-Mar cerca sua família de muitasegurança. ?Eu desafio qualquer um a chegar perto de um parente dele. A família dele tem mais segurança do que a de um governador.? Marina acredita que o grande inimigo da polícia dentro dos presídios continua a ser o aparelhode rádio Nextel, ainda impossível de ser rastreado e interceptado. Segundo ela, os presos se comunicam cada vez mais por meio desses aparelhos. ?Só se fala de radinho. O papel da Administração Penitenciária é não deixar entrar Nextel,mas vai entrar sempre.?

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