Crimes da 1ª onda de ataques em SP foram além do PCC

O Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) fechou o primeiro balanço dos casos ocorridos entre 12 e 20 de maio de 2006, semana da primeira onda de ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC). Estão sob investigação 85 homicídios de autoria desconhecida ocorridos na capital durante a semana dos ataques. Foram esclarecidos 19 casos (22%). O resultado surpreendeu os policiais. ?Pelo que vimos até agora, muitos aproveitaram o momento para resolver problemas antigos, não relacionados com o crime organizado?, avalia o delegado Armando de Oliveira da Costa Filho, responsável pelas investigações no DHPP. Foram 493 assassinatos na semana de 12 a 20 de maio no Estado de São Paulo. O total é mais do que todos os homicídios ocorridos na capital durante os últimos três meses de 2006. O balanço da semana da primeira onda de ataques do PCC entrou para a história da violência com muitas brechas para serem esclarecidas.Sabe-se que, de um lado da guerra, morreram 46 agentes do Estado, supostamente assassinados a mando do PCC. Restam muitas dúvidas sobre as outras mortes. Por que tanta gente morreu? Foram grupos de extermínio? Foram mortes ligadas ao crime organizado? Passados dez meses do evento, os primeiros passos começam a ser dados para ajudar a compreender melhor o que aconteceu naqueles dias.Onze dos 19 casos esclarecidos foram crimes comuns, relacionados a conflitos que não tinham ligação com a guerra do PCC. Quatro assassinatos foram a mando da facção e existe a suspeita em relação a outros três casos. Nesses, as vítimas eram agentes públicos. Em outra ocorrência, no dia 16 de maio, ficou comprovada a participação de um soldado da Polícia Militar na execução de três vítimas. Testemunhas contaram na época dos fatos que os matadores chegaram em três motos, as mesmas que eram usadas pelos PMs que fazem policiamento no Jardim Brasil, na zona norte. Eram 21h30 e um grupo de jovens conversava em frente a um lava-rápido. Os criminosos eram 12. Entre eles estavam duas mulheres. Passaram diversas vezes dando o alerta: ?Cai fora porque nós vamos voltar.? Voltaram atirando e três não conseguiram escapar. Morreram Murilo de Moraes Ferreira, Felipe Vasti Santos de Oliveira e Marcelo Heyd Meres. O DHPP descobriu que um dos autores era o policial Willian Vicari, que meses depois foi assassinado. Outros 12 suspeitos ainda precisam ser identificados.Outros casosEm outras duas chacinas esclarecidas, as histórias são bem diferentes. Em uma delas, em José Bonifácio, na zona leste, morreram Andressa Ferreira Lima, Débora Cabral Dias e Eduardo Simões de Oliveira. No dia 14 de maio, eles foram assistir vídeo na casa de um amigo que tinha ido viajar. Sabendo da ausência do proprietário,Leandro, João Bosco, Marcio e duas meninas tentaram roubar a residência. Encontraram os três vendo televisão. Como conheciam os ladrões, foram assassinados. O outro triplo homicídio teve motivação passional. Apesar de reconhecer os avanços na investigação, o ouvidor da Polícia, Antonio Funari, pondera que falta muito para a sociedade ter uma ampla visão do que aconteceu naquela semana. A ouvidoria listou 87 casos em que havia suspeitas de que a vítima tenha sido executada. Três deles, incluindo um triplo homicídio, estão na lista do DHPP como esclarecidos. ?Existem ainda muitos casos suspeitos de terem sido cometidos por grupos de extermínio.?A Corregedoria da Polícia Militar também ajudou a mostrar que os policiais partiram para a ofensiva naqueles dias. A equipe do cabo Renato Aparecido Russo, da Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), deixou um rastro de seis mortes entre 13 e 15 de maio. Segundo apuração da entidade, sua equipe matou duas pessoas por noite, sempre alegando legítima defesa. Os casos ocorreram em Guarulhos e Poá, na Grande São Paulo. Outro caso investigado pela corregedoria ocorreu em Suzano. A vítima foi José Felix Ramalho, ex-presidiário. A apuração também apontava a autoria da Rota.PMs matam policiaisNem todos os policiais militares assassinados durante as ondas de ataques ordenados pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) foram vítimas do crime organizado. Segundo reportagem publicada na quinta-feira, 22, no Jornal da Tarde, Dois PMs do 18º Batalhão estão presos no Presídio Militar Romão Gomes, acusados da morte do soldado Odair José Lorenzi e da irmã dele, Rita de Cássia, numa emboscada na Vila Nova Cachoeirinha, zona norte de São Paulo, no dia 12 de julho de 2006. Pelo menos outros cinco casos semelhantes estão sendo investigados pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).Os soldados Rogério Alberto Sol Júnior, de 26 anos, e Róbson da Costa Oliveira, de 36, foram apontados como autores do crime pelo exame de balística feito no Instituto de Criminalística. Eles tiveram a prisão temporária de 30 dias decretada, no dia 7, pela juíza Tatiana de Oliveira, do 2º Tribunal do Júri (Fórum Regional de Santana).O laudo atesta que o único tiro que acertou a testa de Rita, causando a morte, partiu da pistola calibre 40 do soldado Oliveira. O exame não conseguiu mostrar de que arma saíram os três tiros que mataram Lorenzi, mas revelou que ele trocou tiros com Sol Júnior. Os projéteis alojados no colete à prova de balas e na virilha do sobrevivente foram disparados do revólver 38 do PM morto. VersãoO exame derruba a versão apresentada pelos PMs à Polícia Civil e à Corregedoria. Oliveira e Sol Júnior contaram que, no dia dos fatos, por volta da meia-noite, faziam patrulhamento nas proximidades da Rua Alfredo Werner, quando ouviram disparos de uma arma de fogo.Eles teriam parado para atender à ocorrência, quando foram alvejados por quatro indivíduos armados e revidaram. Na troca de tiros, Sol Júnior foi atingido duas vezes. Os atiradores teriam fugido, antes da chegada de reforço policial. Em seus relatos, os soldados afirmaram que só souberam dos ataques a Lorenzi e Rita quando eles deram entrada no centro médico, levados por outros colegas, chamados para intensificar a caça aos supostos atiradores.Lorenzi foi encontrado caído na frente do portão da casa e Rita, no quarto do andar superior do sobrado. Segundo parentes ouvidos no dia do crime, Lorenzi ouviu vozes masculinas chamando seu nome no portão. Ao atender, foi baleado à queima-roupa. A irmã, Rita, acordou com o barulho dos disparos e saiu na janela para ver o que estava acontecendo. Levou um tiro certeiro na testa. No dia seguinte, a Polícia Militar chegou a divulgar que os assassinos dos irmãos seriam os mesmos que atacaram Oliveira e Sol Júnior.Segundo o corregedor-geral da PM, José Paulo Menegucci, Sol Júnior era tratado como vítima até setembro, quando começaram a surgir informações de que policiais militares estariam envolvidos nas mortes dos irmãos. Ainda não se sabe o que teria motivado o crime. No fim daquele mês, as armas dos soldados foram apreendidas a pedido do DHPP. Com a divulgação do laudo do IC, no início de março, pediu-se a prisão temporária. Cópia do laudo também foi remetida à corregedoria, que solicitou a prisão temporária dos acusados junto à Justiça Militar. Colaborou Rita Magalhães

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