Crimes políticos impõem rotina de medo no Rio

A população do município de Magé, na Baixada Fluminense, a 60 quilômetros do Rio, ainda acompanhava as investigações do assassinato do vereador Alexandre Pereira Alcântara (PSC), de 39 anos, em janeiro do ano passado, quando o corpo da vice-prefeita Lídia Menezes (PSDB), de 37 anos, foi encontrado carbonizado, no dia 2 de junho. Os dois casos voltaram a ser lembrados pelos deputados estaduais do Rio com a morte, há três semanas, do deputado federal Valdeci Paiva de Jesus (PSL), atingido por 19 tiros em um subúrbio carioca. Figuraram entre as justificativas para a instalação da comissão parlamentar de inquérito (CPI) que vai investigar os crimes políticos ocorridos no Rio. Pelo menos 40 assassinatos e atentados contra políticos e outras autoridades foram registrados nos últimos sete anos, a maioria deles na região metropolitana. "Está parecendo história de serial killer", diz o presidente da Comissão de Segurança da Câmara Municipal de Magé, o vereador e policial militar Dejair Corrêa, lembrando o assassinato do colega Walter Moraes de Arruda, em 1998. Corrêa anda armado e não deixou sua pistola nem no dia do enterro da Lídia Menezes. "É um costume profissional", explica. "Tenho me resguardado." Blindados - Em Magé, além da prefeita Narriman Zito Felicidade, não é difícil encontrar políticos circulando em carros blindados e cercados de seguranças. Eles costumam lembrar o caso de Alexandre Alcântara, cujo carro foi metralhado na estrada Rio-Magé. A mãe e o motorista do vereador, que viajavam com ele na ocasião, também morreram. A vice-prefeita levou três tiros de pistola antes de ser carbonizada. Foi preciso fazer exame de DNA para confirmar a morte de Lídia, evangélica e mãe de três filhos. Um levantamento inicial sobre os crimes indica que vingança, brigas de família e matadores de aluguel não são marcas exclusivas das rivalidades do interior nordestino. Um ponto comum nas investigações é a suspeita de envolvimento de outros políticos com mandato. A população é capaz até de apontar mandantes e matadores que continuam em liberdade. Presidiários - Depois do assassinato de Valdeci, que tinha sido eleito deputado estadual, o suplente Marcos Abrahão (PSL) tomou posse no dia 1.º de fevereiro em clima de constrangimento, com parlamentares evangélicos usando faixas pretas nos braços. Apontado pela polícia como um dos possíveis mandantes, Abrahão corre o risco de ter o mandato cassado. Amanhã, apresentará sua defesa à Mesa Diretora da Assembléia. O crime foi cometido por presidiários que deixaram as delegacias onde estavam presos para fazer o "serviço" e voltaram às suas celas. "Temos de pedir muito a Deus para nos proteger", diz o presidente da Associação dos Prefeitos da Baixada Fluminense, Antônio de Carvalho (PMDB), evangélico da Igreja Batista. Para o político peemedebista, no entanto, as mortes e atentados "são casos isolados". Mesmo assim, defende maior atenção dos partidos na hora de aceitar filiações e lançar candidatos e acredita que a CPI possa dar resultados: "Talvez, políticos que se sentem ameaçados decidam apresentar informações importantes." Antônio Carvalho governa São João de Meriti, onde outro crime político assustou a população em 1998. Assim como no caso de Lídia Menezes, o corpo do vereador Sérgio Costa Barros foi encontrado carbonizado em seu carro. Outro vereador, Cláudio Heleno dos Santos Lacerda, foi acusado pelo crime e condenado a 19 anos e 11 meses de prisão. Chegou a ser preso, mas, há dois anos, mas conseguiu a anulação do julgamento. De volta à liberdade, foi novamente eleito e hoje ocupa uma das 16 vagas da Câmara Municipal. Procurado pelo Estado, não foi encontrado.Insegurança - No caso da vice-prefeita de Magé, o acusado é o vereador Genivaldo Ferreira Nogueira, que havia pedido o impeachment da prefeita Narriman. Ele alega inocência. Conhecido como Batata, está preso na Divisão de Capturas e Polícia Interestadual (Polinter), no Rio. Espera seu julgamento, o que deverá ocorrer no mês que vem.Em Magé, o clima é de insegurança. Por precaução, os três filhos de Lídia Menezes mudaram-se para o município vizinho de Duque de Caxias. "A gente tem medo, mas Deus abençoa", conforma-se Sebastião Ferreira Menezes, de 67 anos, pai de Lídia. Até hoje ele não conseguiu o atestado de óbito da filha, esbarrando na burocracia da Justiça, cujos peritos ainda não concluíram todos os exames exigidos no caso. "Ainda não tenho direito a nada", lamenta o ferroviário aposentado. Acompanhando as investigações pelos jornais, ele tem uma desconfiança: "Acho que é problemas deles mesmos, dos políticos, querendo se apoderar do lugar dela."

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