REUTERS/Paulo Whitaker
REUTERS/Paulo Whitaker

No 10º dia de ataques, Ceará transfere mais 15 detentos para presídio federal de Mossoró

Outros 20 já tinham sido transferidos com apoio do Ministério da Justiça; ataques a viadutos em Fortaleza continuam mesmo com a atuação da Força Nacional; 309 pessoas foram presas

Juliana Diógenes e Marcia Feitosa, Enviadas especiais

11 de janeiro de 2019 | 01h15
Atualizado 11 de janeiro de 2019 | 14h55

FORTALEZA - No 10º dia de ataques no Ceará, o clima em Fortaleza continua sendo de medo e preocupação. Apesar da redução do número de atentados nos últimos dias - foram registrados, oficialmente, 180 até a última quinta-feira, 10 - a população teme que as ocorrências continuem.

O Ministério da Justiça e Segurança Pública divulgou, nesta sexta-feira, 11, que 15 presos do Ceará foram transferidos para o presídio federal de Mossoró, interior do Rio Grande do Norte. A inclusão foi finalizada às 6h30 desta sexta. Uma escolta conjunta da Polícia Rodoviária Federal (PRF), Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN) e do Governo do Ceará foi organizada para a ação. No total, 35 presos foram transferidos. 

Somente nesta sexta-feira, três ataques já foram contabilizados. Os casos aconteceram no Centro Comunitário do Bairro Dias Macedo, em Fortaleza, que sofreu uma tentativa de incêndio, em uma Unidade do Centro de Referência de Assistência Social (Cras) do Bairro Conjunto Esperança, em Fortaleza, incendiado pela segunda vez e no pátio do hospital de Maranguape, onde uma ambulância  foi queimada.

A Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) informou que 309 suspeitos já foram presos ou apreendidos por participação nos atos criminosos registrados nos últimos dias no Estado. 

Das 17 horas de quinta-feira até a manhã desta sexta-feira,  22 pessoas foram capturadas. 

No fim da noite, criminosos detonaram uma bomba no viaduto de Messejana, na zona sudeste da capital cearense. A explosão provocou uma pequena cratera no chão e a pista foi interditada pela polícia. Após vistoria, o local foi liberado.

Por volta das 23h40 de quinta-feira, o Corpo de Bombeiros também atendeu a ocorrência de uma explosão em uma ponte da Avenida Pompílio Gomes, no bairro Barroso. Ninguém se feriu.

Além disso, veículos foram queimados durante a noite de quinta e a madrugada desta sexta-feira, em ruas de Fortaleza, segundo informações do tenente Romário Fernandes, do Corpo de Bombeiros do Ceará.

"As facções se assustaram com a Força Nacional, mas é só ela ir embora que os ataques vão voltar a acontecer", diz uma comerciante de 36 anos que pede para não ser identificada. Ela mora na Sapiranga, região onde nasceu a Guardiões do Estado (GDE), facção criminosa criada no Ceará. Na rua onde vive, o caminhão de lixo não passa desde o Ano-Novo e uma montanha de dejetos se acumula nas calçadas.

Além da GDE, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) também atuam nos presídios cearenses e têm sido responsáveis pelos ataques que incendiaram prédios públicos e privados, afetaram a circulação de ônibus e impactaram o dia a dia do cearense na última semana. 

Moradores de bairros mais afastados do centro de Fortaleza relataram, sob a condição de anonimato, que homens ligados aos grupos do crime organizado continuam impondo toque de recolher dentro dos bairros e têm chegado até a queimar lâmpadas dos postes de iluminação pública para impedir a visibilidade no momento dos ataques, que têm acontecido na madrugada. 

Já passava das 19 horas de quinta quando a recepcionista Débora Miranda, de 23 anos, desistiu de entrar no ônibus no Terminal da Parangaba que a levaria até a casa do namorado, na Barra do Ceará, bairro que registrou atentados como a queima de veículos. "Perto da casa dele, estão queimando as lâmpadas dos postes. E no caminho, o ônibus passa por essas ruas, que ficam totalmente escuras. Não tenho coragem de pegar. Não me sinto segura", diz. "Todo mundo ainda continua com medo."

A assistente administrativa Teresa Souto, de 35 anos, trabalha em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) no Canindezinho, onde na quarta-feira um ônibus foi incendiado e a iluminação, cortada. "O atendimento encerrou às 21 horas e só retomou hoje (quinta), às 7 horas", conta. O local funciona 24 horas. 

"Como é que o governo diz que os ataques diminuíram? Está todo mundo com medo. Acho que não vai acabar tão cedo. Eles acham que prendendo muitos marginais, vão acabar. Mas é muito bandido", afirma ela. "Estamos em guerra. Com certeza estamos em guerra, para chamar polícias de outros Estados é porque a situação já é de calamidade pública."

Um motorista de 24 anos, que pede para não se identificar, diz ter percebido a redução dos ataques. "Mas ninguém está confiando que acabou. O crime dentro dos bairros é muito grande. As armas dos traficantes são pesadas, às vezes melhores do que as dos policiais", diz.

Um entregador de bebidas relatou ao Estado que foi impedido pelos criminosos de entrar em dois bairros. "Eles chegaram dizendo: 'Ou vocês saem daí ou vamos tacar fogo nesses caminhões", relata. Para ele, se a Força Nacional se retirar, os ataques podem voltar novamente com força.

Nos terminais de ônibus, os coletivos com destinos considerados mais perigosos seguem partindo sob escolta de motoqueiros ou com a presença de dois policiais na porta de entrada. O apoio dos agentes de segurança tem início às 17 horas e segue até as 22 horas. Os ataques a ônibus diminuíram nos últimos dias, mas moradores relatam que agora a estratégia é incendiar espaços e veículos particulares, e não mais públicos.

Declaração do governador do Ceará, Camilo Santana (PT)

Em meio à onda de violência no Ceará, Camilo Santana afirma que governos foram omissos em relação à segurança. Durante entrevista concedida em uma rádio local, na manhã desta sexta-feira, o governador do Ceará, Camilo Santana, elogiou o governo Jair Bolsonaro e criticou presidentes anteriores, por não  enfrentarem efetivamente o problema da  insegurança no País. Segundo o gestor, inclusive os antigos governantes do PT - partido pelo qual foi eleito - foram omissos. 

"O Governo (federal) tem dado todo o apoio. Estou criticando todos os governos que passaram, inclusive do meu partido, que foram omissos nesta área da segurança", afirmou Santana. 

O governador reiterou que aprovou uma lei que fazia o bloqueio de aparelhos celulares nos presídios, mas a norma foi considerada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Porém, o governador não mencionou que a lei pedia que a instalação fosse feita por operadoras de telefonia, e foi este o ponto considerado inconstitucional. 

O processo sobre o  bloqueio do sinal de celular no Sistema Penitenciário Cearense já se arrasta por cinco anos. A última sentença obrigando o Estado a instalar os equipamentos  por conta própria, foi expedida, no último dia 2 de março de 2018 pelo juiz Francisco Eduardo Torquato Scorsafava.

Na decisão, o magistrado determina que o Estado terá um prazo de 180 dias para que "proceda a aquisição e promova a devida instalação de bloqueadores de sinal de celular em todas as unidades prisionais sob sua responsabilidade". Porém, desde abril de 2016, a 10ª Vara da Fazenda Pública determinou que o governador fosse intimado para informar quais medidas estavam sendo cumpridas, para a implantação dos bloqueadores, determinada em caráter liminar, em março de 2013.

No dia 2 de maio de 2016, um oficial de Justiça anexou uma certidão ao processo dizendo que dirigiu-se duas vezes ao Palácio da Abolição, nos dias 28 e 29 de abril, mas não encontrou o governador. 

O oficial diz ter 'suspeitado' de sua ocultação e marcou citação com hora para o dia útil seguinte. O profissional informa que retornou ao Palácio, no dia e hora marcados, mas novamente não encontrou Camilo Santana. "Realizei a citação na pessoa do Sr Alessandro Padilha de Carvalho, identificado como funcionário do setor jurídico, tendo o mesmo ficado ciente de tudo, depois de folhear a contrafé que lhe entreguei tendo, porém, recusado-se a assinar recebendo", informou o oficial em sua certidão./ Colaborou Renata Okumura

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