Crise aérea deve provocar aumento de fluxo nas rodovias

Com medo de ficarem presos nos aeroportos, em razão da crise aérea que tem causado atrasos nos vôos, brasileiros já estão mudando sua opção de transporte. Muitos já resolveram encarar as estradas, em vez dos aeroportos, e devem causar picos históricos de movimento nos terminais de ônibus e nas rodovias federais e estaduais. De acordo com o diretor-geral da Polícia Rodoviária Federal (PRF), Hélio Cardoso Derenne, o temor de um aumento significativo no movimento nas estradas realmente existe e operações especiais devem ser montadas para monitorar o tráfego. "O ministro (da Justiça, Marcio Thomaz Bastos) considerou positiva a iniciativa da parte da PRF de se precaver com o aumento. E acenou, sim, a possibilidade de destinar recurso extra para a PRF para operações especiais", declarou Derenne à Agência Estado.Ainda assim, mesmo que essa ajuda extra não seja efetivada, segundo o diretor-geral da PRF, deve ser montado um esquema com equipes de plantão, caso o "caos" dos aeroportos se transfira para as estradas. "Independente dos recursos, já trabalhamos com a idéia de ter equipes de prontidão para atuar, caso haja alguma crise nos aeroportos que reflita um aumento no volume de tráfego nas rodovias federais", informou Derenne.De acordo com um funcionário da Polícia Rodoviária Federal, que preferiu o anonimato, durante as festas de final de ano o fluxo de veículos nas rodovias aumenta 35%. Em 2006, deverá ultrapassar essa marca, passando de 40%.ÔnibusAs empresas de ônibus que servem o País contam com o tradicional aumento de passageiros desta época do ano, mas também já trabalham com a hipótese de absorção de passageiros do sistema aéreo, por conta da crise no setor. De acordo com a Socicam, empresa que administra grandes terminais rodoviários de passageiros de algumas das maiores cidades brasileiras, como São Paulo e Rio de Janeiro, as companhias de ônibus já estão pedindo carros extras e as passagens para alguns horários e dias já estão se esgotando rapidamente.Na capital paulista, onde a Socicam administra os Terminais Tietê, Barra Funda e Jabaquara, a procura é maior pelas linhas que tem como destino Curitiba (PR) e, principalmente, as cidades do Nordeste, em que o aumento chegou a atingir 13% em determinados municípios. Para o Rio, também existe um crescimento, mas dentro da média dos últimos anos.De acordo com o gerente de Operações da empresa em São Paulo, Antonino Alibrando, a estimativa de aumento geral é de 10% na quantidade de passageiros neste fim de 2006. "Devemos ter 127.600 partidas a mais de ônibus em função do Natal e Ano Novo, fechando com 1,403 milhão de passageiros para este ano. O ano passado teve 1,276 milhão de passageiros", informou, referindo-se ao número projetado para o último mês de 2006. "Estamos tendo um crescimento um pouco maior do que normalmente ocorre no mês de dezembro. Principalmente na última semana, a gente tem observado que houve migração dos aeroportos para as rodoviárias", acrescentou.Também em relação aos dias que antecedem o Natal, Alibrando espera um pico de 2.100 a 2.150 partidas, no dia 22. Ressaltou, entretanto, que o recorde, de 2.850 partidas num único dia, em 1992, não deve ser batido. "Orientamos que os passageiros procurem passagem com antecedência, porque, depois, vão ficar sujeitos a horários remanescentes. A idéia de procurar antes é de ele ter uma opção de escolha maior, para não ter que se sujeitar a um horário que não seja o mais agradável", aconselhou.Concessionárias preparadasSe os órgãos federais e os terminais rodoviários de passageiros trabalham com um aumento de fluxo, as concessionárias das rodovias seguem tranqüilas e, conforme salientaram à Agência Estado, preparadas. A Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR) não projeta mudanças significativas nas rodovias do País. De acordo com a assessoria de comunicação da associação, os esquemas extras de operações aos usuários deverão ser suficientes para a movimentação de usuários no período.Na avaliação da ABCR, uma eventual transferência de usuários entre os setores poderia ocorrer basicamente nas estradas federais não-privatizadas, como a Fernão Dias (São Paulo-Belo Horizonte) e Régis Bittencourt (São Paulo-Curitiba), ou nas que a administração passou para a iniciativa privada, como a Presidente Dutra, que tem a concessionária Nova Dutra como responsável e interliga as duas maiores capitais do País - São Paulo e Rio de Janeiro. Como exemplo, a associação destacou, entretanto, que, mesmo que uma grande quantidade de usuários da Ponte Aérea Rio-São Paulo migrasse para a Dutra, o sistema estaria pronto para absorver esta parte adicional.A análise é compartilhada pela Nova Dutra. De acordo com a concessionária, o movimento de fim de ano é, tradicionalmente, inferior ao do feriado do dia 12 de outubro, quando se comemora o Dia de Nossa Senhora Aparecida.Nesta data, a rodovia recebe, em um único dia, uma quantidade significativa de carros e, principalmente, ônibus de romeiros, vindos tanto de São Paulo como do Rio de Janeiro, de maneira diferente das semanas de Natal e Réveillon, que contam com uma maior quantidade de dias e quando o maior fluxo tem como destino as cidades fluminenses."Não acreditamos numa grande migração de usuários do sistema aéreo para o rodoviário, mas, se acontecer, estaremos preparados", afirmou o coordenador de Interação com o Cliente da Nova Dutra, Henrique Bekis, que projeta um número de 460 mil veículos saindo de São Paulo em direção ao Rio de Janeiro e de 235 mil veículos no sentido oposto.Deste total, de São Paulo ao Rio, seriam 220 mil veículos nos dias que antecedem o Natal e 240 mil no período do Réveillon. Do Rio a São Paulo, seriam 115 mil e 120 mil, respectivamente. Vale dizer que a projeção deste ano da Nova Dutra para o feriado de Nossa Senhora Aparecida foi de 190 mil veículos, apenas no dia 12 de outubro.A ABCR acrescentou que não tem um número projetado para o fluxo de veículos do final do ano. Quanto ao Índice ABCR de Atividade, produzido pela associação em conjunto com a Tendências Consultoria Integrada, sua utilização como parâmetro foi descartada porque o indicador é dessazonalizado e, desta maneira, não conta com os impactos dos feriados do ano.Segundo a ABCR, o objetivo deste índice é medir a atividade econômica do País. Se o nível de produção na indústria ou no campo varia de maneira positiva ou negativamente, a conseqüência é logo percebida nas estradas, com o aumento ou a diminuição do tráfego de caminhões. O fluxo de veículos leves tem relação com o fator renda e a lógica é semelhante: maior ou menor movimento de automóveis é sinal de crescimento, queda ou mesmo estabilidade do nível de renda no País.Litoral paulistaO litoral paulista está entre os locais que mais recebe paulistanos no Estado durante as festas de fim de ano e, segundo a Ecovias, concessionária que administra o Sistema Anchieta-Imigrantes, o fluxo projetado deve ficar na média dos últimos anos, mesmo com uma eventual migração de usuários vindos dos aeroportos. O sistema é formado pelas rodovias que levam o motorista à Baixada Santista, como a Anchieta, a dos Imigrantes, a Padre Manoel da Nóbrega e a Cônego Domênico Rangoni (antiga Piaçaguera-Guarujá).A Ecovias estima que, somente na semana entre o Natal e o Ano Novo de 2006, entre 700 mil e 1 milhão de veículos passem pelo sistema. Em 2005, a projeção era idêntica e o balanço final da concessionária mostrou que 906 mil carros passaram pelas estradas.Na Operação Natal, que se inicia no dia 21 de dezembro e segue até o dia 24, a Ecovias estima que devem descer em direção ao litoral entre 230 e 300 mil veículos, número que, segundo a concessionária, não justifica a implantação de operações especiais de tráfego. No Ano Novo, a contagem terá início no dia 26 e seguirá até o final do dia 1º de janeiro. Durante esse período, devem descer, com destino à Baixada Santista, entre 460 e 710 mil veículos.Em toda a Operação Verão 2006-2007 da Ecovias, entre os dias 16 de dezembro e 25 de fevereiro, já contando com o carnaval, mais de 4 milhões de veículos devem passar pelas rodovias. Na operação 2005-2006, a concessionária registrou 4 milhões e 400 mil veículos passando pelos pedágios do sistema.HotéisSe as concessionárias de rodovias não demonstram preocupação com o impacto da crise aérea, há quem veja a questão com bons olhos. Prova disso é que muitos hotéis próximos à capital paulista já estão com 100% de ocupação e comemoram, obviamente.O Hotel Fazenda Mazzaropi, em Taubaté, a 130 km da capital paulista, já está com sua ocupação lotada para o final do ano e nos primeiros 15 dias de janeiro. "Nunca tivemos uma ocupação tão antecipada. Neste ano, em novembro já estava quase tudo lotado, coisa que nunca ocorreu antes. Com os ´apagões aéreos´ as pessoas realmente resolveram se antecipar mais", afirmou Arthur Ribeiro, gerente do hotel. "Embora tenha prejudicado muitos setores de turismo, para nós, de certa forma, foi bom", complementou.Um dos sócios da rede Beach Hotel - Maresias e Juqueí - do litoral norte paulista, Sérgio Kellem, disse que o movimento melhorou e que isso pode estar relacionado à crise aérea. "Estamos lotados no final do ano e existe a hipótese, sim, de ter relação com o medo dos paulistanos em ficarem presos nos aeroportos", afirmou.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.