Crise atinge Aeroporto de Cumbica

Pista em situação precária teve a reforma atrasada por causa do acidente em Congonhas, que deixou 199 mortos

Bruno Paes Manso, O Estadao de S.Paulo

07 Julho 2030 | 00h00

Problemas de edificações nas proximidades do aeroporto, uma pista com problemas, dúvidas quanto à segurança em pouso de grandes aviões e dificuldades de ampliação. Não se trata de Congonhas - aeroporto que começa hoje a descentralizar rotas, após a tragédia com o Airbus A320 da TAM que matou 199 pessoas -, mas de sua principal alternativa, Cumbica. O aeroporto de Guarulhos, segundo especialistas, também tem problemas e está muito próximo do limite de operação. Na semana passada, TAM, Gol e Varig anunciaram o remanejamento de 52 vôos para Guarulhos. O aeroporto de Cumbica deve ser o aeroporto a receber, inicialmente, a maior parte dos vôos transferidos de Congonhas, absorvendo 30% do movimento. Isso deve levar Cumbica a chegar a um pico de 100 pousos e decolagens por hora, 33 movimentos por hora a mais do que a média atual. Essa movimentação só acontece hoje nos horários de pico - entre 7 e 10 e entre 21 e 23 horas. Para dar conta dessa movimentação, sobram problemas. A pista mais extensa de Cumbica, com 3.700 metros de comprimento e quase 20 anos de uso, está com a capa de rolamento gasta. O desgaste dessa camada de asfalto torna o piso vulnerável, sujeito a fissuras, buracos e ao desprendimento de pedras durante a operação. O conserto provisório do piso da pista - as chamadas operações tapa-buraco - é feito rotineiramente. Mas a freqüência do serviço não é suficiente para deixar a pista livre de problemas. O Estado conseguiu fotografias de uma das pistas de Cumbica, tiradas na quinta-feira. A segunda pista do aeroporto, de 3 mil metros de extensão, foi recapeada no ano passado e encontra-se em boas condições. Na pista que ainda não foi reformada, foi possível encontrar buracos de quase 8 centímetros, um asfalto bastante gasto e ranhuras no limite da capacidade para dar conta do escoamento de água. "Assim como existe um enorme rigor para que as aeronaves reponham as peças dentro de um prazo para evitar qualquer risco de vida para os passageiros, o mesmo cuidado deve ser seguido com a manutenção de uma pista", afirma o engenheiro Corrado Balduccini, consultor de projetos de aeroportos, que participou da construção de aeroportos em Curitiba, Santos, Rio e Belo Horizonte, entre outros locais. Balduccini avalia que a grande quantidade de pedras no asfalto mostra uma pista gasta, de baixa resistência, sujeita a abertura de buracos e fissuras. Em dias de chuva, dependendo do tamanho dos buracos, aumenta o risco de a água empoçar ou de escoar para a parte de baixo da pista, o que pode causar deformações no asfalto. "As fotos não mostram uma pista que coloque as aeronaves em perigo. Mas revelam que é necessária pronta manutenção." A Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária (Infraero) admite que a pista está com a vida útil próxima do fim. Tanto que já concluiu a licitação para a reforma da pista, inicialmente prevista para começar em maio. Adiada primeiramente para o dia 10 e depois para 23 de julho, o cronograma de obras foi atropelado pelo acidente da TAM em Congonhas. Na quarta-feira, um dia depois do acidente, uma audiência pública, que deve ser feita obrigatoriamente antes do começo das obras, foi desmarcada pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Com o aumento da confusão nos aeroportos, para dar conta do movimento que viria de Congonhas, as obras foram adiadas mais uma vez, sendo remarcadas para março, com conclusão prevista para o segundo semestre do próximo ano. O Estado enviou as fotos e perguntas sobre as condições da pista para a Infraero. Em nota, a empresa afirmou que ainda avalia as alternativas para executar a obra este ano. Afirma-se que a equipe técnica da estatal também "está avaliando" se a pista tem capacidade para agüentar o aumento da demanda decorrente das mudanças em Congonhas. Segundo a nota, caso a opção seja pelo adiamento da obra para o ano que vem, serão feitas recuperações localizadas para garantir a segurança das operações. Outro engenheiro consultado, que foi superintendente de Cumbica e atuou da construção do aeroporto, mas que pediu para não ser identificado, disse que as fotos mostram uma "pista cansada" e que precisa ser reformada. "Mas é possível garantir a segurança com reformas localizadas." No ano passado, Cumbica atendeu 15,5 milhões de passageiros, índice que beirou a capacidade do terminal, que é de 16 milhões de passageiros por ano. Caso venham os 1,5 milhão previstos de Congonhas, pode ultrapassar a capacidade. DIFICULDADES Pista: prevista para ser reformada somente no ano que vem, a pista mais extensa de Cumbica, com 3.700 metros de extensão, está com a capa de asfalto gasta, o que facilita o aparecimento de buracos, fissuras e a soltura de pedras durante as operações. Adensamento: os moradores dos nove bairros vizinhos ao aeroporto tiveram um crescimento populacional de 156% entre 1980 e 2000. Terceira pista: especialistas afirmam que expansão não solucionaria o problema. Existem pelo menos 25 mil pessoas para serem desapropriadas - que se articulam para evitar o processo.

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