Crise atingiu gabinete de Marzagão

Ele reduziu criminalidade, mas denúncias o derrubaram; Serra optou por Ferreira Pinto, que cuidava das prisões

Marcelo Godoy, O Estadao de S.Paulo

19 de março de 2009 | 00h00

Dois anos, dois meses, 18 dias - e dez grandes crises - depois, o secretário da Segurança Pública, Ronaldo Bretas Marzagão, pediu demissão do cargo. Para o seu lugar, o governador José Serra (PSDB) nomeou o procurador de Justiça Antônio Ferreira Pinto, de 65 anos, que ocupava a Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) desde junho de 2006, após os ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC) em São Paulo. Marzagão deixou o cargo em meio a denúncias de corrupção que envolviam seu antigo homem de confiança e ex-adjunto, Lauro Malheiros Neto. Alegou razões pessoais. Leia mais sobre a mudança na secretariaA nomeação de Ferreira Pinto para a pasta foi decidida ontem de manhã. O novo secretário da Segurança foi chamado ao Palácio dos Bandeirantes quando se dirigia a Avaré para vistoriar o recém-descoberto túnel de 120 metros construído sob as ordens do PCC para uma fuga em massa na Penitenciária 1 da cidade. Havia no governo, porém, quem defendesse a nomeação do atual adjunto de Marzagão, Guilherme Bueno de Camargo. O governador, porém, decidiu-se por Ferreira Pinto e ainda nomeou o adjunto dele, Lourival Gomes, para assumir seu lugar na SAP. Os novos secretários não quiseram dar entrevistas ontem. Haverá mudanças nas cúpulas das Polícias Civil e Militar. Mas nada ainda foi definido. A nomeação de Ferreira Pinto faz dele mais um homem forte no governo. "É homem sério e competente. Fez um bom trabalho na Administração Penitenciária na luta contra o crime organizado", disse o líder do PSDB na Assembleia Legislativa, deputado Samuel Moreira. O novo secretário tem boa relação com o secretário-chefe da Casa Civil, Aloysio Nunes Ferreira Filho, e com o vice-governador, Alberto Goldman.O desafio que Ferreira Pinto vai enfrentar na Segurança Pública é grande. A gestão de seu antecessor manteve em queda os principais índices de criminalidade, como sequestros (-45%) e homicídios (-10%) - os números de roubos e furtos permaneceram estáveis. Ao mesmo tempo, Marzagão enfrentou a presença do crime organizado em comunidades carentes por meio do programa Virada Social.Ferreira Pinto também terá de enfrentar uma das maiores crises da história da secretaria, com denúncias de corrupção que envolvem delegados e até oficiais superiores da Polícia Militar. De fato, a gestão de Marzagão muito cedo teve de lidar com denúncias contra policiais. Esse foi o caso da suposta lista de propinas pagas pela máfia dos caça-níqueis às delegacias da cidade de São Paulo. A lista foi apreendida em 2007 com o advogado Jamil Chokr, que sempre negou as acusações. Meses depois, foi a vez de a prisão pela Polícia Federal (PF) do traficante colombiano Juan Carlos Abadía fazer nascer mais um escândalo. É que policiais civis teriam achacado o colombiano, líder do cartel do Norte do Vale.A gestão da Segurança mal havia recuperado o fôlego com a prisão dos ladrões dos quadros furtados do Museu de Arte de São Paulo (Masp), no início de 2008, e um novo escândalo abalou a pasta. Daquela vez, policiais militares do 18º Batalhão foram acusados de montar um grupo de extermínio - um deles, um soldado, foi apontado como o assassino do coronel José Hermínio Rodrigues, comandante da PM na zona norte de São Paulo. Hermínio era amigo de Ferreira Pinto.Os problemas na Segurança se sucederam em 2008. No mês de março, a Corregedoria Administrativa do Palácio dos Bandeirantes fez uma investigação sobre o uso da verba do gabinete de Marzagão. Em meio às apurações, o chefe de gabinete, Tadeu Sérgio Pinto de Carvalho, foi exonerado. Em abril foi a vez de a prisão do investigador Augusto Pena, acusado de achaques contra a cúpula do PCC, acarretar a demissão de outro auxiliar e homem de confiança de Marzagão: o então secretário adjunto Lauro Malheiros Neto.O ano ainda teria a série de escândalos que sacudiu o Departamento Estadual de Trânsito (Detran), com a descoberta da máfia das CNHs, e a greve da Polícia Civil, com o confronto entre policiais grevistas e a Tropa de Choque da PM na frente do palácio, em 16 de outubro. Em novembro, o Estado revelou que o gabinete do secretário gastava em operações policiais sigilosas mais do que departamentos operacionais da Polícia Civil.Quando mais uma vez Marzagão parecia recuperar o fôlego, foi a vez de o investigador Pena aceitar fazer a delação premiada e contar o que supostamente sabia sobre o esquema de corrupção, que, segundo ele, seria chefiado por Malheiros Neto. A divulgação, pelo Estado, de um DVD - no qual o sócio de Malheiros Neto supostamente revela como era o esquema de compra de sentenças para absolver policiais corruptos e de cargos na Polícia Civil - tornou a situação de Marzagão ainda mais difícil. CRONOLOGIA DAS CRISESMarço de 2009Venda de cargos O ex-secretário adjunto Lauro Malheiros Neto e seu ex-sócio, Celso Valente, estariam envolvidos em esquema de venda de cargo na Polícia Civil. DVD divulgado pelo ?Estado? confirmaria delação de Augusto PenaHighlandersUm grupo de PMs do 37.º Batalhão é acusado de integrar um grupo de extermínio. Eles obrigariam menores infratores a roubar para a organização. Quem desobedecia era morto. Quatro corpos foram encontrados decapitados em Itapecerica da Serra. Dez policiais foram denunciadosFevereiro de 2009El NegroO traficante colombiano Ramón Manuel Yepes Penagos, conhecido como El Negro, enganou policiais paulistas e se passou pelo mineiro Manoel de Oliveira Ortiz. Ele denunciou achaques e disse que pagou R$ 400 mil para policiais civis. Ele seria parceiro de Abadía Dezembro de 2008Verba secretaDinheiro do gabinete do secretário para operações reservadas foi usado para finalidades não sigilosas, como compra de fuzis, sem licitaçãoSetembro de 2008Greve da Polícia CivilA greve durou quase dois meses. Após confronto entre PMs e policiais civis, em outubro, o governo Serra apresenta reajuste de 6,5% Junho de 2008Máfia do DetranO Detran bloqueou 19 mil CNHs e investigou 200 autoescolas. Foram presas 19 pessoas. Dois delegados e o corregedor do órgão caíramAbril de 2008Achaques ao PCCPena é acusado de sequestrar um enteado de Marcola. Cobra R$ 300 mil de resgate. Afastado da polícia, é reintegrado por Malheiros NetoJaneiro de 2008Matadores do 18O coronel José Hermínio Rodrigues é assassinado com 5 tiros. Na zona norte, investigava a atuação de PMs em grupo de extermínio na região

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