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Crise diminui mortalidade?

'Os problemas econômicos obrigam as pessoas a ter uma vida mais austera, o que inclui comer mais em casa, sair menos à noite e dirigir menos o carro'

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2016 | 05h00

Pelo menos uma boa notícia para países que vivem uma crise econômica. Uma pesquisa divulgada na última semana sugere que as pessoas vivem mais em fases de recessão. Para cada 1% de aumento no desemprego, a taxa de mortalidade cai 0,5%, segundo estudo global que colheu dados de 1960 a 2010.

Os problemas econômicos obrigam as pessoas a ter uma vida mais austera, o que inclui comer mais em casa, sair menos à noite e dirigir menos o carro. Isso pode fazer as taxas de mortalidade relacionadas a problemas nutricionais e acidentes automobilísticos diminuírem.

A recessão e o desemprego deixam as pessoas com mais tempo para ter um estilo de vida mais saudável, o que significa refeições planejadas e atividades físicas frequentes. O estigma de estar desempregado também diminui, já que muito mais gente enfrenta a mesma situação. Assim, sintomas de ansiedade e depressão por estar fora do mercado de trabalho poderiam causar menos impacto à população.

Por outro lado, as taxas de suicídio tendem a crescer. Para cada 1% de aumento no desemprego, há um acréscimo de 1% no número de suicidas. A pesquisa foi feita pela universidade de Anglia Ruskin, no Reino Unido, em parceria com o projeto online IZA World of Labor, que trabalha com formulação de políticas públicas. As informações foram divulgadas no Daily Mail.

De acordo com os dados, além do suicídio, os problemas econômicos podem levar a outros agravos de saúde, como um aumento no consumo de álcool e drogas. Esse efeito, porém, pode demorar mais para aparecer.

Mas nos EUA, a recessão parece ter derrubado o uso de tabaco e bebida, feito as pessoas se exercitarem mais e, como consequência, produzido uma queda das taxas de obesidade, ataques cardíacos e doenças hepáticas. Na Ásia (Japão, Hong Kong, Coreia do Sul, Malásia, Cingapura, Taiwan, Tailândia e Filipinas), a crise levou a um impacto ainda maior nas taxas de mortalidade. A cada 1% de aumento no desemprego, as taxas de mortalidade caíram 1,4%.

Para os especialistas, esse efeito “benéfico” da recessão pode variar em função da parcela da população estudada. Ele é mais nítido nas populações vulneráveis que estão protegidas por mecanismos de suporte social (benefícios de longo prazo, auxílio-desemprego, um bom sistema público de educação e saúde, suporte psicológico, etc). Será que no Brasil a saúde dos mais vulneráveis socialmente tem melhorado com a atual crise? Pouco provável.

Racismo, saúde e PIB. Outro artigo, também divulgado pelo Daily Mail, mostra o impacto que o racismo pode ter na saúde e na situação econômica dos países. O trabalho foi feito pela Universidade Deakin, da Austrália. Estudo com ressonância magnética funcional, que investigou o que se passa no cérebro das pessoas, mostra que o racismo pode sobrecarregar áreas envolvidas com características de personalidade, tomada de decisão, comportamento e controle.

Como resultado, além do estresse emocional, ansiedade e depressão, vítimas de preconceito têm seus níveis de cortisol elevados, o que pode aumentar a pressão arterial e o ritmo de batimentos cardíacos. Os “biomarcadores” revelam um processo de inflamação crônica que pode aumentar os riscos de obesidade e diabete. Além, é claro, do maior consumo de álcool e drogas e de número de suicídios. Além de afetar as vítimas, alguns novos trabalhos apontam que os racistas, ou mesmo aqueles que assistem passivamente a atos de discriminação, também têm impactos negativos em sua saúde.

Os trabalhos são claros em apontar que o racismo torna não só as pessoas doentes, mas também a sociedade. Que tal investir esse dinheiro na prevenção e no combate ativo às diferentes formas de preconceito? A educação e a lei são o caminho.

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