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Crise faz "bicos" de policiais desaparecerem em SP

Faz três meses que o soldado Ricardo foi substituído por um sujeito mal-encarado e armado, que garante a segurança em um mercadinho do município de Franco da Rocha. O ladrão, que antes assaltava toda semana o caixa do comércio, agora recebe uma taxa mensal para garantir proteção. Entre continuar pagando R$ 1 mil por mês para que, nas horas de folga, o PM evitasse os assaltos, o dono do mercado fez a escolha: chamou o bandido e propôs o negócio - receberia R$ 400 para não roubar nem permitir que outros ladrões se aproximassem do dinheiro do caixa. Policiais contam que a "taxa de proteção" é paga por comerciantes a ladrões e traficantes do Capão Redondo e Jardim das Rosas, na zona sul; em São Mateus, na região leste; em Perus, na zona norte, e em municípios como Franco da Rocha. Com bandidos prevenindo os crimes pela metade do preço, os donos dos pequenos negócios dispensaram os serviços dos policiais. O cabo Antonio também teve destino triste: foi trocado por uma lente e dois parafusos pregados na parede. Uma câmera de vídeo, que agora monitora os movimentos suspeitos em uma padaria da zona sul, tomou seu lugar no bico de segurança - e também o rendimento extra de R$ 1,1 mil por mês. Atingidos pela crise econômica, comerciantes que contratavam policiais em suas horas de folga - e pagavam para ter segurança - de repente se viram obrigados a dispensar esse serviço. E o corte no orçamento levou policiais civis e militares à beira do caos financeiro - têm dívidas com agiotas e estão recorrendo aos advogados de seus sindicatos para barrar as ações de despejo, pedir redução de pensões alimentícias e defendê-los em casos de negligência e corrupção. "É impossível pagar aluguel e sustentar a família com o que a gente ganha na polícia", queixa-se o cabo Antonio. "A única saída é fazer bico." A crise dos bicos começou a se tornar mais grave no ano passado, quando os comerciantes começaram a cortar gastos. E as poucas vagas que restaram são disputadas como em um leilão. "Além de serem substituídos por câmeras de vídeo e alarmes, os policiais enfrentam a concorrência dos guardas metropolitanos e agentes penitenciários, que também estão atrás de um reforço no orçamento", aponta o tenente Dirceu Gonçalves Cardoso, presidente da Associação dos Policiais Militares (Apomi). "O certo seria que a polícia pagasse um salário decente para que pudessem descansar nas horas de folga." O tenente estima que 30% dos PMs já perderam seus empregos - o efetivo total da corporação passa de 80 mil homens e a maior parte deles depende do bico para viver. O cabo Wilson de Oliveira Moraes, presidente da Associação dos Cabos e Soldados, diz que a luta da entidade sempre foi por um piso de dez salários mínimos para os policiais. Sem remuneração melhor, ele estima que 80% dos militares fizeram empréstimos na Nossa Caixa, em uma linha de crédito aberta pelo governo. O soldado tem um salário médio de R$ 1,2 mil e o pagamento do empréstimo, em até 24 meses, vem descontado no holerite. A distribuição de cestas básicas nas entidades tem aumentado: as 40 mensais, até bem pouco tempo atrás entregues pela Associação aos policiais mais carentes, agora somam 500. "Mas já são insuficientes", diz o cabo Wilson. Ele aponta outro efeito da perda do rendimento extra: "No meio da crise, o policial consome álcool". A soma do estresse do trabalho no patrulhamento com a pressão financeira se reflete na segurança pública - o policial fica desatento, desmotivado e, conseqüentemente, ineficiente no combate ao crime. A situação está tão crítica que parte dos 6 mil policiais civis associados do Sindicato dos Investigadores deixou de pagar a taxa mensal de R$ 6. "O sindicato ganhou um caráter mais assistencialista do que de reivindicação", diz o presidente da entidade, João Batista Rebouças. A média salarial do investigador é de R$ 1,1 mil. "O pessoal nos procura com problemas financeiros e para apoio psicológico. Quando há casos de dependentes de álcool ou drogas, encaminhamos a pessoa para clínicas conveniadas. Quando tem esse problema, o policial vem aqui. Ele tem receio de falar com seu chefe, de ser afastado do trabalho e de se sentir marginalizado. Se for afastado, recebe só 75% do salário." O Setor de Comunicação Social da Polícia Militar informa que os delitos cometidos pelos PMs - como a corrupção - não aumentaram por causa da perda dos bicos. No ano passado, foram abertas 3.454 sindicâncias e 550 investigações preliminares. Neste ano, houve 2.530 sindicâncias e 500 apurações. Em 2001, 3.195 policiais procuraram a Apomi em busca de advogados. Nesse ano, a quantidade já chega a 4.239. São casos de ações de despejo, pedidos de redução de pensão alimentícia, divórcios e crimes de corrupção. A Corregedoria da Polícia Civil também tem registrado uma tendência no aumento de Boletins de Ocorrência com queixas contra seus homens. A estatística interna mostra que, no ano passado, foram feitos 520 BOs. Neste ano, até setembro, são 463. O diretor da Corregedoria, delegado Roberto Maurício Genofre, no entanto, diz não ter condição de avaliar motivos do crescimento das reclamações. Mas policiais que trabalham nesse setor da polícia dizem que a falta de dinheiro tem feito com que seus colegas se envolvam não só em mais casos de corrupção como de negligência e de mau atendimento nas delegacias. Os advogados do Sindicato dos Investigadores também estão com mais trabalho. Até quatro meses atrás, realizavam três audiências mensais na Justiça, defendendo algum policial envolvido em irregularidades. Agora, a média é de 12 audiências por mês.

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