Cristovam diz temer que Lula possa sofrer "tentações chavistas"

O candidato do PDT à Presidência da República, senador Cristovam Buarque, disse nesta sexta-feira, durante sabatina com presidenciáveis, promovida pelo Grupo Estado, temer que, se reeleito com uma quantidade de votos muito expressiva, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sofra de "tentações chavistas" - numa referência ao presidente da Venezuela, Hugo Chávez, e eventuais tentativas de se perpetuar no Poder Executivo por meio do autoritarismo, com conseqüente enfraquecimento dos demais poderes. "Não é fechar a imprensa, não é prender, mas governar diretamente com o povo. Essa é minha preocupação com o Chávez. Ele passa por cima do Congresso e, aí, essa democracia direta é um passo para o líder carismático impor sua vontade", comentou.Incentivado pelo jornalistas presentes a explicar melhor o seu temor, Cristovam exemplificou: "Se ele (Lula) conseguir 60 milhões de votos no primeiro turno, chegar lá (Palácio do Planalto) carregado, o PT com os 30 deputados que sempre tem, o Congresso fazendo a oposição dura que já fez; ele (Lula) pode começar a convocar plebiscitos para aprovar seus projetos em cima do Congresso. E, de repente, por que não, tentar um terceiro mandato, como outros já fizeram na América Latina, através de um plebiscito?"E ressaltou: "Eu temo isso, não porque ele tenha alguma vocação autoritária, mas porque, em política, você é feito conforme as circunstâncias. E ele (Lula) não vai querer jogar fora os quatro anos dele. De repente, para não jogar fora, poderá tentar criar mais quatro."Cristovam citou ainda que a própria sugestão feita pelo governo, de uma Assembléia Constituinte para a exclusiva realização de uma reforma política no Brasil, pode ser considerada como um exemplo inicial de traços "chavistas". Disse ainda que a desmoralização do Congresso, com os recentes escândalos de corrupção verificados na Câmara e no Senado, poderia ser uma ferramenta importante para Lula impor condições ao País."A desmoralização no Congresso pode até legitimar que ele faça isso. Eu lamento dizer, mas nós, os congressistas, estamos colaborando para que essa alternativa possa ocorrer, se o povo não se mobilizar. Se ele (Lula) mandar um plebiscito amanhã, propondo fechar o Congresso, eu tenho minhas dúvidas se perderá", afirmou Cristovam, citando também que alguns gestos do Poder Judiciário colaboram para um desequilíbrio dos três Poderes.Apesar da afirmação, ele ponderou: "Eu não penso em golpe, não penso em prisão, em censura, acredito que Lula jamais faria isso, mas usar o poder carismático e o voto, com minoria num Congresso desprestigiado, para governar diretamente através de plebiscito."Benefícios do segundo turnoApesar das ponderações, o presidenciável do PDT disse que seria uma atitude autoritária (de Lula). "Seria autoritarismo, não uma ditadura". E repetiu que o segundo turno seria bom até mesmo para o Lula. "É bom para ele negociar, conversar, saber que existem outras visões de mundo no Brasil e não apenas a dele."Na avaliação do pedetista, sua preocupação com o tema se dá pelo fato de que um presidente eleito já no primeiro turno, com prestígio popular, no seu último período e sem conseguir colocar suas propostas em prática, pela falta de sustentação política, "tem a grande tentação de fazer (as coisas) na marra". E complementou: "Não é só o Lula não (que poderia cair nessa tentação) qualquer outro teria." O candidato do PDT à Presidência foi o segundo presidenciável a ser sabatinado no anfiteatro do jornal "O Estado de S. Paulo".

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