Crônica de um erro ignorado

Pesquisa não elege ninguém. No máximo, ajuda ou atrapalha candidatos a levantar dinheiro, anima ou deprime seus cabos eleitorais. Porém, gasta-se mais tempo discutindo o sexo das pesquisas do que se analisando os erros induzidos pelo sistema de votação no Brasil.

José Roberto Toledo, O Estado de S.Paulo

08 Novembro 2010 | 00h00

A adoção do voto eletrônico aumentou drasticamente o acerto formal do eleitor nos últimos 12 anos. A urna informatizada ajudou milhões de brasileiros a concretizarem a intenção de sufragar seus candidatos, de todos os partidos.

O gráfico ilustra o momento em que os votos válidos para todos os cargos eletivos convergiram para valores muito próximos. Foi na eleição de 1998, quando a Justiça Eleitoral implantou a urna eletrônica na grande maioria dos municípios brasileiros.

Até então, a dificuldade de escrever impedia grande parte do eleitorado de transformar seu desejo em marca legível na cédula. Isso ficava evidente nas eleições de deputado estadual e federal. À época, confundia-se problemas no manejo do lápis com voto de protesto.

Trocada a grafia pela digitação, instantaneamente despencaram as taxas de brancos e nulos, multiplicando os porcentuais de votos válidos para Câmara e Assembleia.

Em 2002, universalizou-se o voto eletrônico. Aumentaram os votos válidos para presidente, mas, surpreendentemente, eles ficaram aquém dos dados a deputados estaduais e federais. Não era mais motivo de comemoração, mas sinal de que havia algo errado.

É um sintoma de outro tipo de engano do eleitor, até hoje tratado com indiferença pela Justiça Eleitoral e propositalmente ignorado pelo Congresso: o erro na sequência de votação.

Bombardeado por centenas de horas de propaganda na TV e no rádio, dezenas de manchetes de jornal, milhares de mensagens via internet, todas sobre eleição presidencial, o eleitor chega à urna e a primeira coisa que lhe pedem é votar para... deputado estadual.

A cena repetiu-se milhões de vezes. O eleitor sai da cabine e o mesário avisa que ele ainda não terminou. Ele diz que sim. O mesário explica: são seis votos, precisa digitar todos. Envergonhado diante da fila, o eleitor se livra dos votos restantes cada vez mais apressado. O último é para presidente.

Sabe-se que o erro na ordem de votação chegou aos sete dígitos no primeiro turno de 2010 por vários indícios. Todos apontam na mesma direção:

? Em comparação ao primeiro turno, houve menos 2,5 milhões de votos brancos e nulos no segundo turno presidencial. A queda entre turnos se repete desde 2002.

? Segundo o Ibope, 15% do eleitorado de Marina Silva e 33% do de Plínio Sampaio anularam ou votaram em branco no segundo turno.

? O número de votos brancos e nulos deveria ter crescido 45% com o acréscimo dos ex-eleitores do PV e do PSOL, que ficaram sem candidato. Mas caiu para 7 milhões.

? A votação de José Serra cresceu 10,6 milhões de um turno para outro. Disso, segundo o Ibope, 9,8 milhões vieram de Marina e 200 mil de Plínio. Faltam 600 mil votos.

? A votação de Dilma Rousseff cresceu 8,1 milhões. Desses, 6,5 milhões vieram de Marina e 200 mil de Plínio. Faltam 1,4 milhão de votos.

? Ao menos 2 milhões de eleitores que anularam ou votaram em branco no primeiro turno votaram em Dilma ou em Serra no segundo. Por quê? Muito provavelmente porque se confundiram com a ordem esdrúxula de votação em 3 de outubro, mas não no turno final, quando votaram apenas uma ou duas vezes.

? Como a abstenção aumentou no segundo turno, eleitores que deixaram de votar podem também ter errado em 3 de outubro. Logo, mais de 2 milhões podem ter se enganado no primeiro turno na ordem de votos.

? Na única eleição "solteira" para presidente (1989), 94% dos votos foram válidos, recorde até hoje.

Há duas saídas: 1) inverter a ordem de votação e priorizar a de presidente; 2) "descasar" as eleições de presidente, senador e deputado federal das de governador e deputado estadual. Ambas as soluções dependem dos inventores da atual ordem de votação e do casamento das eleições.

Lembrete: não fosse a pesquisa do Ibope, seria quase impossível estimar os erros provocados pela ordem de votação.

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