Cúpula da polícia defende ''legalidade'' da ação

Tenente critica, porém, a prestação de socorro; consultor diz que faltou senso de oportunidade

Talita Figueiredo, RIO, O Estadao de S.Paulo

16 de julho de 2008 | 00h00

O relações-públicas da Polícia Militar, o tenente-coronel Rogério Leitão, afirmou que os três cabos e o soldado que perseguiram o carro onde estava o assaltante Jefferson dos Santos Leal, de 18 anos, e o dono do carro roubado, Luiz Carlos Soares da Costa, de 36, agiram dentro da "legalidade". Segundo ele, no entanto, a prestação de socorro aos dois homens que foram baleados durante a perseguição poderá ser considerada "desvio de conduta" e receber "punição administrativa".Também será investigada pela PM a descaracterização da cena do crime, que poderá prejudicar o trabalho da perícia. Os policiais, além de retirarem de dentro do carro a arma do assaltante, removeram o carro da via pública.O consultor de segurança Rodrigo Pimentel, ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope) e roteirista de Tropa de Elite, concorda com tenente-coronel que havia "legalidade" para agir, mas ele afirma categoricamente que não havia "oportunidade". "Há 25 anos a PM normatizou o disparo de arma de fogo em vias públicas. Está claro que não basta a legalidade. É fundamental que haja também a oportunidade e a capacidade técnica. Caso contrário, o tiro é vedado", afirmou o ex-capitão Pimentel.Segundo ele, dizer que os PMs não sabiam que dentro do carro havia uma vítima não pode ser justificativa para a morte de Costa. "A polícia deve presumir que ali pode ter alguém, porque é comum, em muitos roubos, o bandido permanecer com a vítima. Também existe norma para perseguição em área urbana e a norma determina que não se dispare contra o carro, porque pode levar perigo a qualquer usuário da via. O problema é que a polícia quer bancar o risco para a sociedade", disse. Para o consultor, o correto seria tentar um cerco com outros carros.O relações-públicas da PM disse que os procedimentos necessários foram tomados: a sirene foi ligada, os batalhões da área foram avisados e não foram disparados tiros durante a perseguição, até o momento em que o assaltante atirou no carro da PM. "Os policiais contaram que o assaltante fugiu cantando pneus. A caracterização de quem estava atirando teria sido dificultada porque era noite e havia uma ação contra eles." Leitão admitiu, porém, que a forma como foi prestado o socorro tanto a Costa quanto a Jefferson "não foi correta" e será apurada pela PM. O tenente-coronel tentou justificar a retirada do carro da vítima da rua, como forma de "liberar o trânsito", mesmo assim ele também admitiu que os PMs agiram de forma errada. Depois da morte do menino João Roberto Amorim Soares, de 3 anos, na noite de domingo passado, também por engano, o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), afirmou que todos os policiais militares lotados em batalhões da capital vão passar por reciclagem de técnicas de abordagem. Os treinamentos, que duram apenas três horas, já começaram na semana passada.

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