Cúpula sabia que grevistas iam armados

Serviço de Informações da PM fez alerta dias antes do confronto

Marcelo Godoy, O Estadao de S.Paulo

18 de março de 2009 | 00h00

A cúpula da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo sabia que policiais civis pretendiam ir até o Palácio dos Bandeirantes armados. O Serviço de Informações da Polícia Militar alertou o comando-geral da corporação para essa possibilidade, dias antes do confronto entre PMs e civis que deixou 32 feridos na frente da sede do governo paulista. A revelação foi feita pelo coronel Danilo Antão Fernandes, ao depor no inquérito feito pela Corregedoria da Polícia Civil sobre o caso. Aberto para apurar a confusão, o inquérito de cinco volumes mostra policiais civis como vítimas e militares como averiguados.Os rumos do inquérito da Corregedoria da Polícia Civil deixou oficiais da PM indignados. O comandante-geral, coronel Roberto Antônio Diniz, procurou o governo. Oficiais da PM ouvidos pelo Estado contam que ele já havia alertado a Secretaria da Segurança Pública e a Delegacia-Geral sobre a intenção dos grevistas de comparecer armados à manifestação na frente do palácio. No comando da PM, os coronéis afirmam que o planejamento da operação, em 16 de outubro de 2008, foi conjunto. No inquérito, o coronel Antão disse que "o serviço de inteligência da PM dias antes já havia detectado aquela situação e informado que havia possibilidade de os manifestantes para lá se deslocarem com suas armas".O Estado procurou a Secretaria da Segurança Pública (SSP). Se sabia que policiais compareceriam armados ao Palácio dos Bandeirantes, por que não agiu? Para ela, a questão caberia à Delegacia Geral, que não respondeu à reportagem. Também se procurou a SSP para saber se algum policial civil foi indiciado. Nesse caso, a resposta foi a de que ninguém foi indiciado, mas 40 foram ouvidos.A Corregedoria da Polícia Civil passou a apurar os detalhes do plano feito pela PM para conter os grevistas. No dia 21 de outubro de 2008, o presidente do inquérito, delegado Caetano Paulo Filho, pediu à PM que lhe encaminhasse cópia "do plano de segurança adotado para o Palácio dos Bandeirantes com vistas à contenção da manifestação realizada por policiais grevistas naquela data, bem como os nomes e respectivos REs (identidade funcional dos PMs) dos policiais militares encarregados de comandar referida operação". O ofício foi respondido pelo coronel Daniel Rodrigueiro, subcomandante-geral da PM, em 10 de novembro. Rodrigueiro informou que a operação foi chefiada pelos coronéis Aílton Brandão, Eduardo Félix de Oliveira e Danilo Antão Fernandes. Enviou ainda cópia do plano do Comando de Policiamento da Capital (CPC).TRÊS POSSIBILIDADESPreviam-se três situações. A primeira era otimista, com a concentração pacífica e sem tentativa de aproximação do Palácio dos Bandeirantes. As outras duas eram pessimistas: uma sem uso da força, com a contenção dos grevistas pelas barreiras da Polícia Civil e da PM, e outra com o uso da força, por meio da Tropa de Choque. Em seus depoimentos, os policiais civis acusaram a ação dos PMs do Choque. Em depoimento de 5 de novembro, o delegado Luiz Antônio Pinheiro, do Grupo de Operações Especiais (GOE), afirmou aos corregedores que tentou conter os grevistas - o GOE, da Polícia Civil, foi mobilizado para ajudar a PM a conter os policiais.Ele disse que presenciou várias bombas serem lançadas pelo Choque. "Gostaria que ficasse consignado que os projéteis de borracha utilizados pelo Batalhão de Choque não poderiam em momento nenhum ser disparados a curta distância, pois o mínimo é de 20 metros, podendo ser letais caso atinjam uma pessoa em distância inferior a essa". Depois disse que "a todo momento tentava negociar com os policiais do Choque para cessarem aquela ação, mas mesmo assim continuaram por um bom tempo".Outro delegado ouvido, José Roberto Arruda, que devia conter os grevistas antes que chegassem ao Palácio dos Bandeirantes, disse que havia entrado em contato com os superiores e dito "que a situação estava ficando insustentável, pois como os manifestantes aguardavam havia várias horas, estava chovendo e queriam ser recebidos de qualquer maneira". Acabou ferido por uma bomba da Tropa de Choque.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.