'CVV do crack' recebe 33 ligações por dia

Procura por serviço VivaVoz quadruplicou desde 2005; estudo com usuários indica que até 30% dos atendidos chegam a abandonar o vício

Lígia Formenti / Brasília, O Estado de S. Paulo

19 Maio 2013 | 09h34

 Pelas estatísticas do serviço VivaVoz, ligado ao programa Crack, É Possível Vencer, tem-se uma mostra do avanço do uso da droga no País. Quando o atendimento foi lançado, em 2005, 7% dos aconselhamentos eram relacionados ao crack e à cocaína. No ano passado, o porcentual subiu para 28%. Há uma média diária de 33 ligações em busca de auxílio.

“É um número significativo”, afirma a coordenadora do serviço, a professora da Universidade Federal de Ciências da Saúde, Helena Barros. Transformado em utilidade pública no ano passado, quando foi integrado ao programa criado pelo governo federal, o VivaVoz (132) passou a atender todos os dias da semana, sem interrupção, como um “CVV das drogas”. 

Os resultados alcançados pelo trabalho indicam o quanto o atendimento por telefone pode ser promissor. “Principalmente entre jovens”, diz Helena. Estudo feito com 1.124 usuários de crack ou cocaína atendidos pelo programa, de 14 a 24 anos, mostra que 30%, ao fim do acompanhamento, afirmavam ter deixado a droga. 

Para fazer o trabalho, metade dos usuários recebeu aconselhamento comum e outra parte foi atendida com entrevista motivacional. Dos integrantes desse último grupo, 40% disseram ter deixado a droga. As informações são obtidas por meio de relatos dos próprios pacientes. 

“Temos de nos fiar na veracidade das informações prestadas. Mas estudos internacionais mostram que nesse tipo de entrevista a confiabilidade é de aproximadamente 85%”, conta Helena. Entre maiores de 24 anos, os resultados foram menos expressivos. Daqueles que receberam atendimento convencional, 15% relataram abstinência. “Quanto menos tempo de uso, mais vínculos o usuário tem, menores são os estragos e, portanto, mais fácil é a recuperação.”

O serviço começou a ser feito em 2005. No ano passado, o programa foi integrado ao Crack, É Possível Vencer e o atendimento foi ampliado. O número de consultores deverá passar dos atuais 20 para 30 até o fim do ano. Ao longo desse período, 2,5 milhões de chamadas foram feitas. “Atendimentos propriamente ditos foram 400 mil”, diz a professora.

Perfil - A maior parte das pessoas que procura o VivaVoz é das classes C e D. São homens solteiros, com mais de 35 anos e ensino fundamental incompleto, diz Helena. “Acreditamos que o serviço pode ser um instrumento valioso de acesso ao tratamento.” 

O psiquiatra do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da Universidade Federal de São Paulo (Proad-Unifesp), Tiago Fidalgo, considera a entrevista motivacional uma estratégia importante.

“Ela estimula o paciente a passar de um estágio de contemplação, aquele em que está começando a pensar em interromper um vício ou hábito, para um planejamento mais efetivo e, numa outra etapa, para a ação”, afirma. A estratégia completa também pode ser eficaz em momentos de recaída. “Com a entrevista, a pessoa é estimulada a não desistir e retomar a ação.”

Já o psiquiatra Mauro Aranha não exibe o mesmo entusiasmo. “É um recurso interessante, mas muito limitado”, afirma. Para ele, esse tipo de atendimento serve apenas para uma primeira orientação.

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